O crime, o crescimento da economia, a nanotecnologia, o medo, a pobreza, o sofrimento, o planeta, as matérias-primas, a violência, a religião, o corpo nas artes visuais, a mutilação, as marcas, África, os Sex Pistols, a precariedade do emprego, os novos desafios do capitalismo, a sociedade cibernética, os ordenados dos administradores, Hunter S. Thompson, a alucinação, a gente gira, a jihad, a juventude, a Europa, o mundo, os recolectores de lixo, a solidão, tem tudo a ver. Um mundo de perdição e de oportunidades.

Pode-se viver rodeado de chaminés mais altas do que as antenas de operadores de telemóveis. Recortam-se, negras, sobre um fundo de céu azul, de diversos azuis e magenta também, emitindo um fumo negro espesso que dominará o cenário. Ou uma inflexão, uma entrada noutro cenário, nos limites de um qualquer concelho onde, dependendo da direcção do vento, se espalha um odor pestífero, insidioso, que varre extensas áreas, entranha por qualquer pequeno orifício que encontre no caminho, atesta os organismos vivos de moléculas transgressoras. Lixo. Toneladas de lixo, uma festa de lixo. Percorremos estradas, a paisagem mudando, tornando-se árida, sem vestígios de vida, e então podemos correr de braços abertos pelo lixo que está a ser despejado por máquinas que se movem e está mais à frente a ser enterrado. E armazéns de concentrado de lixo, de embalagens em concentrado, armazéns sujos, cinzentos, em ruas sujas, e o ambiente irrespirável, habitado por seres com roupas iguais, mutantes que respiram o ar doente com aproveitamento.

Não há limites para a produção de lixo ou para a capacidade de se conviver com a imundice ou outros horrores, como a violência psicológica. Habituamo-nos a tudo. Habituamo-nos a viver em melhores condições materiais. E há esperança para larguíssimos milhões de seres humanos: a sociedade de consumo inventada a ocidente está a implantar-se por todo o lado onde haja terra e pessoas. Um modelo económico contagioso. Portanto um mercado global que se tem vindo a formar. Em 1989 envolvia à volta de mil milhões de pessoas. Em 2007 era três vezes maior. Em 2050 espera-se o abraço de sete mil milhões de indivíduos. Tudo no mercado. Outros rejeitam o mercado e rendem-se ao lixo. Em ambiente urbano. Em Nova Iorque os freegan fazem questão de se alimentar exclusivamente de produtos encontrados no lixo. Por opção tornaram-se recolectores. Têm empregos, ou não precisam deles, e pretendem reduzir o consumo ao mínimo, sendo esse mínimo colhido nos contentores dos supermercados. Os produtos são escolhidos com compostura, não sujando as ruas, escolhidos em sacos de lixo de supermercados seleccionados, lojas gourmet, boas padarias. Alfaces, frascos de molho, fruta, ervas aromáticas, conservas, sobremesas. Os EUA produzem 245 milhões toneladas de lixo por ano, sendo 12 por cento comida.

Continuando a avançar para ocidente, atravessando o Oceano Pacífico, damos de caras com o Japão. Nas grandes cidades cruzamo-nos com alguns exemplares de gyaru-o de fazer parar o trânsito. Os gyaru-o, ou rapazes-miúda, predominantemente heterossexuais, ostentam um bronzeado perfeito, pele cuidada, penteados elaborados. Adoram perder-se nas compras, em avenidas onde as boutiques se alinham ou em centros comerciais coloridos, escolhendo roupa e cosméticos. Não lhes escapa um eficaz exterminador de borbulhas, um gel de rosto que remove a barba, um solário portátil. A maquilhagem é subtil, faustosos são os cabelos, por exemplo compridos, lisos, em metade elevados, caindo em cascata seguros por portentosa pomada solidificante. Uma destas criaturas divinas pode encontrar-se a mascar uma pastilha fortificada com colagénio, vitamina C e coenzima Q10, que além de purificar o hálito purifica também a pele. [continua]

— Nuno Marques Mendes


[Fontes: Joschka Fisher, Público, Wired, Esquire, The Los Angeles Times]









































































Ana Vieira, Catarina Câmara Pereira,
Fernanda Fragateiro, Fernando Brízio
"Moradas"
Curadora: Sara Matos
Rua Soeiro Pereira Gomes, Lote 1, 6º D
Quarta a Sexta, 14:00 - 20:00; Sábado, 14:00 - 19:00
26 de Fevereiro a 12 de Abril de 2008

Fotografias: Ana Vieira: 5, 6, 15, 16, 17, Catarina Câmara Pereira: 1, 2, Fernanda Fragateiro: 3, 4, 7, 8, 11, Fernando Brízio: 9, 10, 12, 13, 14











[Émon. Exercícios de estilo. 2] Na noite, o carro avança, em solavancos, descapotável, no escuro. O garoto avança cautelosamente, evitando os buracos, com o cotovelo esquerdo de fora pousado na porta. Tem os lábios entreabertos e recebe a brisa marítima na cara. Agitando os cabelos curtos e macios. Trava à beira da falésia. É uma noite quente. O fato verde que veste torna-se mais sexy. Mais reduzido, deixando-lhe parte do peito descoberto, os braços despidos, o tecido colado ao corpo. Émon inclina a cabeça para trás e sente-se muito bem. O mar ronrona. Émon respira fundo, respira livremente.

Há um rapaz de nariz no chão, com umas sardas, que por ali passa, com olhar esquivo atrás de uns óculos brancos foleiros com lentes espelhadas. Anda por ali a rondar, à volta do carro de Émon. Com os óculos postos pouco vê, tem como que uma neblina à sua frente, ampliada pelo efeito dos tranquilizantes que tomou com álcool. De certa forma flutua e tacteia num sonho a preto a branco, cheio de grão. Ele mesmo veste de preto, uma t-shirt que lhe realça a brancura dos braços, um dos quais, o esquerdo, é o suporte de uma pulseira de cabedal trabalhado com um floreado oriental. Veste calças de ganga e usa dois cintos, finos.

Este rapaz incomoda Émon. Ocupa-lhe espaço vital, perturba-lhe a concentração. A sua presença configura-se como um perigo, por ali a tropeçar, a fazer xixi nos arbustos. A atender telefonemas que parecem chegar de uma esposa preocupada. O rapaz tão novo é casado? Émon range os dentes. Está irritado. Aproveita um dos telefonemas para sair, leve, agora que o outro está de costas. Avança de luzes apagadas, incógnito, aliviado.

Agora um cheiro intenso e enjoativo eleva-se da falésia. Um cheiro insidioso, palpável, que cerca e afecta o cérebro. As flores do mal soltam-se e tomam de assalto o cenário. Émon acelera. Atrás de si, ao fundo, move-se um carro preto, comprido, de formas rectilíneas, como uma caixa. É o carro do outro rapaz, chamemos-lhe Doéglac. Aproxima-se com apreciável velocidade. Émon é seguido. Tem de pensar muito depressa: traçar um plano de despistagem eficaz. Depois já não pensa, só age.

Acelera pela estrada marginal, cortando a brisa, cortando a noite quente. Afasta-se da linha do mar fazendo um ângulo de noventa graus. Agarra bem o volante, com as duas mãos, para não voar. Transpõe o campo de agaves com estrondo, no piso irregular, desviando-se das gigantes suculentas: feixes de lâminas de espada verdes que do seio lançam um membro direito ao céu que se abre num ramo de flores amarelas. Cada embate nos agaves é impiedoso. São plantas sobredimensionadas, cada choque amolga o carro, fere a planta, lança um jorro de seiva verde. Doéglac dispara, não vê nada, imerso na neblina narcótica. Por engano atira-se, com o carro, para cima de Émon, proclamando um rugido bestial de motores, uma pancada feroz no dorso que atira o outro carro para longe, magoado. Numa nuvem de terra, pasta vegetal e ferro-velho prossegue a luta que se prolonga no tempo, teimosa.

Para trás fica o campo de agaves e um rasto de destruição, o rasto de dois automóveis que se maltratam. Émon desejaria esmagar o automóvel que transporta aquele rapaz de cabeça baixa e olhar furtivo, escondido atrás de uns óculos escuros e atrás de um pára-brisas. Esmagá-lo contra uma rocha ou atirá-lo no vazio. Mas entram na cidade. Escura. Um labirinto de ruas estreitas, logradouros, pequenos jardins. E perdem-se. Perdem-se um do outro. Émon desliga as luzes, encaixa num acolhedor enconderijo, defronte da casa de uma antiga namorada. Está eriçado e ofegante. O corpo suado. O fato verde, molhado, inicia a refrigeração. Deixa-se capturar pelos estofos, que lhe estimulam os músculos, invasivos. Deixa-se deslizar, deixa-se levar, flutuando. Mole, aéreo, cego.

Noutro local levanta-se uma humidade nascida no mar. As flores do mal estão em plenitude, emitindo fosforescências de caprichosas cores. O aroma intensifica-se com a concentração activa de água na atmosfera. O odor macabro espalha-se e chega longe, atraindo Émon, que volta às ravinas, sorrindo. Abandona o carro maltratado, atira-se, morde o pó, arrasta-se na direcção das rochas, rasgando o fato verde, rejubilante ele também, sangrando a pele, entrando em comunhão com o solo. Tornando-se um entranhado de terra, vegetação, maresia e sangue. De rastos no chão, na noite.

Não sei porquê, mas acho que escondido na noite há alguém que se excita terrivelmente com esta situação. Talvez alguém com uns óculos farsolas, arfante, com a mão dentro das calças.


— Django
















Encontram-se no bar do Hotel-Astro, antro elegante para encontros a meio da tarde. Nódi e o Príncipe conversam durante algum tempo, deixando-se conhecer, razoavelmente. Que tomam? Não se percebe daqui. Levantam-se. Pedem um quarto nos pisos superiores desta torre descomunal. O quarto é redondo, com uma cama igualmente redonda, descentrada, e mais nenhum móvel. Um terço da parede é um rasgo em vidro que ocupa todo o pé direito e atira raios de luz. Tudo é branco. Caem sobre a cama. Ou antes, atiram-se com peso e ficam imóveis, observando-se com cuidado e pormenor. Depois despem-se, gentilmente, mutuamente, agradados. Beijam-se. Depois entregar-se-ão a sexo mais duro, o que não será aqui descrito.

Quando tocou o alarme no pulso do Príncipe, estavam espojados no chão e admiravam a cidade, rente à janela. Seguiam corredores de árvores, que compunham alamedas de sombra, que compunham a cidade, alternando com ruas de sol, apenas pontuadas de árvores de fruto. Muito longe, muito para lá do deserto, estaria o mar. Põem-se de pé. Beijam-se. Vestem-se. Deixam para trás a brancura irradiante, decorada aqui e além de alguns pêlos púbicos orgulhosos da sua negrura. Já na rua, sobre rodas, o Príncipe carrega o sobrolho, chega o pulso à boca e comunica: “Vou a caminho”. E corta o ar, rápido como uma flecha.

Num fluxo, a equipa confluiu para um ponto, onde a Capitã esperava, com uma energia nervosa, pronta a deitar notícias. “O caso é o seguinte: uma família de média burguesia ocupou um apartamento de luxo num condomínio aberto, residência de férias dum big shot qualquer. Não querem sair. Mudaram-se com as bagagens todas. Querem mais qualidade de vida. A nossa missão é pô-los p’ra fora.” A Polícia-da-boa-vontade revela mais uma vez a sua relevância. A sua actuação é um modo limpo de resolver casos que terminariam invariavelmente com um tiro na testa de alguém.

Olham em volta. Estão sobre um campo de jardins e pequenos bosques, flora rude, de um verde intenso. Local fresco, da verdura brotam, a espaços, torres de apartamentos de luxo. Esculturas de pedra que se enterram no verdume. Rolam sob a cerrada sombra, desnudos, tangas negras ao relento, assolados por calafrios.

Tudo agora se passará em grande velocidade. Sobem à torre, batem à porta, a Capitã arremessa a porta contra a parede com estrondo e grita: “Polícia-da-boa-vontade!” E entram. Estão satisfeitos. Já estão lá dentro. A casa é sua. Estão à vontade. O Príncipe agarra-se à sua unidade móvel de conversação, outros enturmam-se e aceitam já comida.

A casa está cheia, há uns cunhados de visita. A miudagem corre, tropeçando nas pernas dos adultos. Vê-se que os ocupantes estão plenamente instalados. A decoração alterada. Trouxeram consigo colchas de renda e bibelots. E a cozinha, a alma da nova casa, labora já a todo o gás. Há um corrupio de mulherio. Fritam-se camarões em azeite e alho e em breve sairá um spaghetti al gamberetti. Outras senhoras acotovelam-se à volta de carnes, molhos, massas que batem sobre a pedra. Na sala de jantar uma grande mesa elíptica enche-se de valiosas peças de gastronomia. Alguns destes squatters comem sentados, imparáveis, outros vagueiam e juntam-se em grupos, calam as crianças ou dirigem-se à cozinha e todos confraternizam honestamente com os policias. Estão num transe alimentar, e não serão incomodados. Não se desconcentrarão. A Capitã aceita um gaspacho à alentejana. Os outros atiram-se às entradas, que ainda há e em grande número. Pratinhos de grão com bacalhau, tiras de pimentos assadas, fígado de coentrada, linguiça frita. Migas de broa.

O Boi Louro toma a cozinha e sai com um leite-creme queimado e muitas reprimendas e gritaria. As mulheres indignam-se: “o doce é depois, grande javardo!” Ele não se incomoda e distribui beijos chocarreiros pelas reputadas especialistas. E faz alarde: está magnífico! Solta rugidos. É o elemento mais bárbaro da equipa. Louro e branco, é o que tem o bronzeado mais fraco. Tem um corpo possante e aparece sempre como um trovão. Chamam-lhe também Gato Capitalista. Uma fera. Em breve insatisfeito com o doce mete à focinhada procurando algum prato de carnes fumegantes, cheirantes, impantes e bem regadas. Mas sobre a mesa repousam unicamente pratos de peixe. Passa os olhos por uma açorda de bacalhau bem regalada de coentros, alho, azeite e sal. Uma beldade ruiva vestida de amarelo coloca-lhe em frente do nariz um arroz de lapas. Segue-a e conquista um honesto borrego assado no forno. O que lhe faz uma sede bestial. Inaugura então os tintos com um Churchill’s de 1999. Douro ferrenho, firme e elegante. Serve primeiro a Capitã e atira-se depois aos golos, fazendo o vinho girar na boca e engolindo depois. Abre de seguida a boca para introduzir mais um naco de borreguinho. Está de meter raiva, inigualável.

E assim esta gula despropositada vai tomando conta de todos naquele apartamento. Vejam o Príncipe, muito direito sobre os patins, de rabinho espetado. Olhando de cima, num lento descer de pálpebras. A tempos perde a pose e ataca uns acepipes que o tentam. E que mastiga, olhando para os lados. O Tio Zé, sentindo-o tão delicado, chega-lhe a travessa de polvo ao alho. Pernas de polvo dispostas no prato em raios de sol, intercaladas de rodelas de tomate muito vermelho e o centro coroado de agriões. Tudo regado com azeite. O mancebo desliza e rapina um tentáculo, que segura com cuidado para não se sujar na gordura. Lambe os dedos. Vê passar leitões, lebres, pombos, favas guisadas com enchidos. O apartamento enche-se de fumos, odores, o ambiente espessa-se, com uma electricidade alimentar, vibrante. Opera-se um ritual mágico da natureza, onde seres vivos recarregam a energia, renovam o corpo, os tecidos, o sangue e ficam impantes de nova vitalidade, quase umas tochas energéticas, luminosas, com um fervor místico. Quando correm à casa de banho continuam a favorecer altas temperaturas, um comércio energético, resultado de fermentações e putrefacções que formam vida nos esgotos e alimentam a casa. Gases que se escapam das retretes unem-se à matéria brilhante que começa a sobrevoar as cabeças dos gulosos.

Voltando atrás, noutro ponto da cidade, temos Nódi. O anel que usa na mão direita já vibrara e, obedecendo a uma ordem sua, materializara à sua frente e em tamanho pequeno uma espécie de génio da lâmpada, um pequeno ser virtual seu conhecido, que lhe apresentava um esboço duma ocorrência a investigar: uma traficância de interesses no mesmo prédio onde a Polícia-da-boa-vontade actuava. Patina. Muda de roupa. E ruma ao matagal.

O seu faro jornalístico leva-o primeiro à porta do apartamento orgíaco. Cheira-lhe a esturro. Depois sobe ao andar de cima, ao apartamento Sul, faz-se sexy e entra na civilizada reunião. Veste calças pretas, camisa preta de tecido fino que se cola ao corpo, que se abre e denuncia o peito musculado e o tronco esguio. Assim a elegância em pessoa, o corpo moreno (mesmo na marca do fato de banho), está de matar. Calça patins. Desliza, volteia e insinua-se. Avança, capturando imagens com o anel, e uns aparelhos que vai espalhando pelo apartamento transmitem imagem e som em tempo real para um computador situado noutro apartamento longe dali, no último andar de um bloco escultórico de ressonâncias Inca. Estas imagens farão escândalo no próximo Telejornal. Gente bem vestida, grandes especulações, grandes tramóias. Formarão a Coluna de Nódi na edição da noite do jornal onde trabalha, igualmente chamado Telejornal.

As suas reportagens são compostas unicamente por imagens. Acumula objectos, retratos dos litigantes, do local do crime. Quando chega cedo ainda apanha a acção. Está por sua conta. Desvia-se das balas, lesto, são admirados os seus golpes de rins. Certas vezes Nódi entra em directo com as suas reportagens-sensação. É um estrondo. A sua presença deixa os telespectadores de cuecas húmidas. Põe a sua vida em perigo nestas missões intrusivas. Qualquer televisor ligado o poderá fritar num segundo. Mas o espectáculo merece o risco.

Uma rede de divulgadores informa-o de importantes ocorrências. Uma rede de geniozinhos virtuais que o saúdam com alegres notícias, prenúncios de prósperas devassas. E assim percorre toda a cidade. Vai conhecendo todos os ramos da Polícia. É uma aparição fotogénica. Gostam dele.

Está então Nódi no apartamento de dondocas e tudo está muito chato. Já estavam tramados, apesar de não o saberem, e para si já não eram notícia. Dá um sorriso e retira-se. O andar de baixo atrai-o. E os aromas são muitíssimos. E a ginástica da tarde com o Príncipe deixou-o esgotado. Tem muita fome.

Em baixo, justamente, a mistura de aromas estimulava glândulas, o calor que se desprendia da cozinha, dos cozinhados e dos animais que tudo abocanhavam amolecia o cérebro, causava lassidão e puxava aos doces e aos refrescos alcoolizados. Fizeram a sua aparição o bolo de requeijão e o bolo rançoso logo seguidos dos explosivos encharcada e barriga de freira. Mas a estes ainda se atropelavam pratos de carne imparáveis, que se produziam na cozinha descontroladamente. A casa entrara em curto-circuito. Comida chamava mais comida. Um desenjoativo pollo al limone, com o frango bem afogado em limão, saindo douradíssimo do forno, trazia já de arrasto um folar de carnes transmontano que vinha fumegante soltando o perfume em grandes golfadas. A um canto, o Príncipe, de perna traçada, açambarcava uma pratalhada de sopa de tomate com azeitonas pretas inteiras. Era o único que se mantinha calmo, porque o ambiente de estábulo que se concentrava no apartamento e que respirava uma perigosa energia punha todos nervosos e impacientes. A Capitã já não comia. Dava voltas. Os outros comiam sempre, com olhares rápidos, com as mãos. A redonda Marquesa do Balde colocava restos em tupperwares. As criancinhas, bichos acossados, colocavam-se debaixo das mesas, uma floresta de olhinhos brilhantes sobressaía no negro, temendo a voragem. Agarravam-se às pernas do Tiger, sempre bom, já com os caracóis espavoridos, os olhões atentos e bons também.

A Capitã dispara então a frase que corre o risco de se tornar clássica: “Tou a ver que tenho de ser eu a iniciar a acção. Como sempre. Querem levantar os cus gordos e fazer alguma coisa?”. Mas é tarde demais. Ouve-se um grande estrondo, da cozinha saem cuspidas todas as mulheres, levando tudo à frente em fumos e vapores. Esta explosão intestinal tudo projecta, rebenta com portas, arrasa mobílias, arrasta humanos que se esborracham contra paredes, se esfolam nas vidraças quebradas. Pelas janelas voam empadinhas de veado, fogões, gordos. A casa é um odre cheio, tudo expele. Dentro, agarram-se onde podem.

Nódi abre a porta em sintonia com a ruidosa detonação e é sugado para o interior. Segura-se à ombreira, radiante, de corpo no ar. Reconhece os efectivos policiais, o seu olhar foca de imediato o Príncipe. Acertou em cheio. E já fotografa, com o anel em flashadas.

Não tem mais câmaras-directo. Mas traz no bolso um aparelhinho, um último recurso, que regista qualquer imagem permitindo-lhe também o directo. Este aparelho fotografa, digitaliza provas, pequenas pistas, filma. Também pode fazer registos de voz, mas Nódi não o considera amiúde. Acha sempre qualquer tipo de imagem superior a qualquer tipo de texto. E segue, esforçando-se nos enquadramentos, realiza algumas entrevistas filmadas. Corta o som, são mímicas que filma.

Agora tudo acalmou mas uma ventosidade cheirosa ainda anima o local e dificulta a acção das equipas de socorro que entretanto chegam. O Príncipe adianta-se-lhe.

Príncipe – O que é que estás aqui a fazer?
Nódi – Investigo.
Príncipe – Vai-te embora. Vais estragar tudo.
Nódi – Parece-me difícil. Já não há nada p’ra estragar.

Recebe instruções do Telejornal. Vai entrar em directo. E quando se coloca em frente da câmara e faz o seu comentário, Nódi evidencia um mamilo que se descobrira. Está vertiginoso e deixa perceber a desolação que o rodeia, filma o fim de festa para os seus telespectadores. Os convivas que se levantam saindo de fardos de comida, a acção dos enfermeiros que levam ao hospital os sobreviventes, o esterco que inundou os campos vizinhos, derramado pelas janelas. Da comida não se aproveita nada. Parece mastigada e digerida. Tudo tão sugestivo como as caras dos squatters, que ficam registadas, caras cheias, inocentes, arregaladas, próximas da náusea, de gente repleta até à goela, de alimento, ar e outros gases. A sua Coluna no jornal da noite estará repleta de escabrosos exclusivos: a sua entrada no apartamento, o eclodir da explosão flatulenta, colorida, veloz. Vasculha mais um pouco no lixo. E abandona a cena.

Os policias voltam para a piscina do costume e colocam-se à sombra dos limoeiros, digerindo a pesada refeição. O Príncipe, ele, não descarrega o sobrolho. Nem quando se sobressalta com uns aborrecidos arrotos.


— Nuno Marques Mendes








"— Perdoo-te — disse ele —, porque te considero como sendo meu filho. Um bom filho da puta, mas apesar de tudo meu filho. Espero que não tenhas esquecido o meu ensino desde que trabalhas no meio de pessoas distintas.

— Sempre procedi como tu me ensinaste. Só há uma coisa nova: as pessoas distintas distinguem-se sobretudo pelo tamanho das carteiras. Roubo-as e respeitam-me. Até os polícias com quem às vezes me cruzo me saúdam com deferência.

— Não duvido disso. São pessoas demasiado estúpidas para lerem a profissão na tua cara.

— E como poderiam fazê-lo? Estou paramentado com todos os ornamentos da prosperidade. Julgam-me rico. Neste meio, já se sabe que só os pobres são ladrões. É uma superstição que remonta à Antiguidade e que convém perfeitamente aos meus negócios.

— Ora aí está para que serve a instrução. Compreendo muito bem que um rapaz inteligente como tu não podia contentar-se com vulgares ratonices. Por Alá!, és o ladrão do futuro. Pode dizer-se que os teus anos de escola convieram perfeitamente à tua ambição.

— A escola só me ensinou a ler e a escrever. Esta magra instrução constituiu para mim o caminho mais seguro para morrer de fome na honestidade e na ignorância. Foste tu o primeiro a abrir-me os olhos sobre a podridão universal. Haver compreendido que o único motor da humanidade era o roubo, é essa a verdadeira inteligência. E no entanto tu não foste à escola. Desde que te encontrei, roubo com a consciência tranquila e o coração contente. Direi mesmo mais. Tenho a sensação de que com a minha actividade contribuo para a prosperidade do país, visto que gasto o dinheiro subtilizado aos ricos em diversas lojas que sem mim e os meus semelhantes iriam à falência."


Albert Cossery, As Cores da Infâmia, 2000
Antígona - Editores Refractários, tradução de Ernesto Sampaio















































João Paulo Feliciano
"Music Lessons / Lições de Música"
Cristina Guerra Contemporary Art
Rua de Santo António à Estrela, 33
Terça a Sexta, 11:00 - 20:00;
Sábado, 12:00 - 20:00
28 de Fevereiro a 29 de Março de 2008


"[...] O título da exposição é retirado de uma série, genericamente intitulada Lições de Música, constituída por fotograias emolduradas conjuntamente com “documentos originais” (capas de revista, páginas de livro ou capas de disco). O principio do “exercício musical”, apresentado pelo mestre para que o aluno execute e pratique até que este esteja dominado, é transformado num comentário conceptual e jocoso sobre a cultura, vista como uma cadeia ininterrupta de transmissão de conhecimento que passa de geração em geração. É neste sentido que a exposição encerra não apenas o humor, mas o uso de uma certa ironia dadaesca para questionar determinados ideais românticos. [...]" (do press release)










Boletim mensal da Associação Portuguesa de Designers, de 1994. Dirigido por Gonçalo Freitas e Gonçalo Falcão, editado por Marta Martins Pereira, com design gráfico de Paulo Ramalho e Rita Múrias. No ano seguinte Portugal e a APD receberiam o Congresso Internacional do Icograda (International Council of Graphic Design Associations). O facto mais saliente, neste boletim e nestes tempos, é não se encontrar o menor vestígio da existência do ciberespaço. Nem um modesto endereço de correio electrónico. Era a Idade do Gelo. Mesmo agora ainda estamos na Idade da Pedra.









Odeio telejornais
por Guidinha *



Se é esta a realidade vou já cortar os pulsos. Mas verificamos que cinquenta por cento do conteúdo de um telejornal é efectiva realidade. Realidade deprimente, escolhida a dedo. A realidade deprimente é a mais atraente e é onde a maior parte dos humanos se deixa afundar, por falta de opções, por vontade consciente ou por falta de imaginação. É o mundo-comezinho, o mundo-catástrofe ou o mundo-celebridade. Tudo da extracção mais bera.

Repetitiva, martela diariamente os mesmos assuntos, à semelhança de uma lavagem ao cérebro. Estranhamente viciante, quando deveria provocar repulsa, esta informação corresponde a uma necessidade mórbida e existencial dos telespectadores. Ali encontram amparo e contrapeso para as suas angústias, encontram vingança, encontram confirmação para as suas suspeitas, o que pensam ser a vida, não sabendo que ninguém sabe o que é, e que o que lhes oferecem é trabalhado para satisfazer a sua procura.

Os discursos exaltados que se ouvem num telejornal, usualmente de políticos ou de jornalistas, lembram fantasias literárias ou cinematográficas onde carrascos vociferam, com má cara, destilam a sua propaganda, exigem atenção, atiram instruções. São esmagadores ou sedutores falhados.

Os outros cinquenta por cento de um telejornal não são realidade. São uma elaboração, o resultado de informação deficientemente descodificada, o produto de mentes que habitam em circuito fechado no mundo eléctrico de écrans de variado tamanho. É informação-design, produzida com o objectivo concreto de ser facilmente mastigável, ela própria mastigada com facilidade pelos tele-informadores. Muita desta informação será em breve gerada por um software de computador, não precisará da mão humana, mesmo os temas serão escolhidos ao acaso, cálculo numérico simplicíssimo. Um caldo de rumores e informação colorida poderá estar na base do produto.

Como se compreenderá, só assisto a um telejornal quando sou obrigada. De resto, para mim, é uma não-existência. Não quero ser contaminada por aquele mundo. A mediocridade pega-se, aquela maneira de falar assustadora, tanto dos comunicadores como dos sujeitos de reportagem, sejam eles comuns, políticos ou outras vedetas. Esta invasão perturbaria os meus estudos, ameaçaria a minha personalidade. Existem muitos mundos e realidades, muito por onde escolher, ou realidades pessoais a construir. Este mundo dos telejornais é uma ficção de má qualidade. Acabe-se com ele.

* Mestre em Aspectos Urbanos