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Odeio telejornais
por Guidinha *



Se é esta a realidade vou já cortar os pulsos. Mas verificamos que cinquenta por cento do conteúdo de um telejornal é efectiva realidade. Realidade deprimente, escolhida a dedo. A realidade deprimente é a mais atraente e é onde a maior parte dos humanos se deixa afundar, por falta de opções, por vontade consciente ou por falta de imaginação. É o mundo-comezinho, o mundo-catástrofe ou o mundo-celebridade. Tudo da extracção mais bera.

Repetitiva, martela diariamente os mesmos assuntos, à semelhança de uma lavagem ao cérebro. Estranhamente viciante, quando deveria provocar repulsa, esta informação corresponde a uma necessidade mórbida e existencial dos telespectadores. Ali encontram amparo e contrapeso para as suas angústias, encontram vingança, encontram confirmação para as suas suspeitas, o que pensam ser a vida, não sabendo que ninguém sabe o que é, e que o que lhes oferecem é trabalhado para satisfazer a sua procura.

Os discursos exaltados que se ouvem num telejornal, usualmente de políticos ou de jornalistas, lembram fantasias literárias ou cinematográficas onde carrascos vociferam, com má cara, destilam a sua propaganda, exigem atenção, atiram instruções. São esmagadores ou sedutores falhados.

Os outros cinquenta por cento de um telejornal não são realidade. São uma elaboração, o resultado de informação deficientemente descodificada, o produto de mentes que habitam em circuito fechado no mundo eléctrico de écrans de variado tamanho. É informação-design, produzida com o objectivo concreto de ser facilmente mastigável, ela própria mastigada com facilidade pelos tele-informadores. Muita desta informação será em breve gerada por um software de computador, não precisará da mão humana, mesmo os temas serão escolhidos ao acaso, cálculo numérico simplicíssimo. Um caldo de rumores e informação colorida poderá estar na base do produto.

Como se compreenderá, só assisto a um telejornal quando sou obrigada. De resto, para mim, é uma não-existência. Não quero ser contaminada por aquele mundo. A mediocridade pega-se, aquela maneira de falar assustadora, tanto dos comunicadores como dos sujeitos de reportagem, sejam eles comuns, políticos ou outras vedetas. Esta invasão perturbaria os meus estudos, ameaçaria a minha personalidade. Existem muitos mundos e realidades, muito por onde escolher, ou realidades pessoais a construir. Este mundo dos telejornais é uma ficção de má qualidade. Acabe-se com ele.

* Mestre em Aspectos Urbanos


O quadro
por Guidinha*


Surpresa! Comprámos o quadro! Não era o que queriam? Agora já é nosso, já é do Estado, de todos nós portanto. Arranjou-se um dinheirito que tinha ficado do seguro das jóias da coroa roubadas aqui há uns anos. Mas todos exigiam esta compra, todos uns mãos largas, da esquerda à direita, de cima a baixo. O património nacional ficaria gravemente esburacado, seria indecoroso deixar o quadro fugir. Ou deixá-lo na mão de privados, que são uns egoístas. Na leiloeira ainda tiveram pena, podiam ter ganho mais dinheiro se houvesse licitação e inflação do preço.

E agora o quadrucho lá vai para o Museu de Arte Antiga, montam-lhe um altar e pode-se dizer aos turistas que temos mais um Tiepolo, ao lado de outro Tiepolo que já lá estava. Um casalinho. Uma “Fuga” e uma “Deposição”. Os visitantes do museu vão passar pelas obras, vão dizer “ah!”, e vão seguir em frente. E ficamos todos mais felizes, a pensar que vivemos num país como deve de ser. E fica mais feliz o vendedor do quadro, que já pode fazer mais umas viagens ou comprar outra porcaria qualquer, mais barata.

E a Ministra da Cultura pode deixar de fazer aquele ar comprometido, aqueles olhinhos de cão triste que ostenta cada vez que lhe exigem mais dinheiro que ela sabe que não tem e não pode dar. Confesso que tenho pena dela. Qualquer membro activo da elite cultural portuguesa, quando olha para a Ministra, só vê cifrões. Ou símbolos do euro. Não é coisa que se faça a uma pessoa. Tem a minha solidariedade. E declaro: senhora Ministra da Cultura: não quero o seu dinheiro.

Pós-comentário: verifico que a minha solidariedade não vale nada. A Ministra foi sacrificada numa operação de relações públicas. Que vá em paz.

*Mestre em Aspectos Urbanos