"Fac Simile" - Projecto Mimesis
Em colaboração com
Mário Nascimento (cerâmica)
Catarina Dias (joalharia)
Espaço Avenida
Avenida da Liberdade, 211, Lisboa
Quarta a Sexta, 18:00 - 22:00
Sábado e Domingo, 15:00 - 19:00
3 de Março a 15 de Abril de 2008












[Émon. Exercícios de estilo. 3] Émon conduz em direcção aos penhascos. À sua frente brilham dois sois. A seu lado enrosca-se Poésy, uma loura estonteante, incomodada com os solavancos produzidos pelo piso irregular e semeado de concavidades. O carro é aberto, recebe a brisa do mar e a luz ofuscante. Émon está deveras satisfeito. Sorri com franqueza, mostra os dentes brancos, as orelhas salientes, a face beije adorável. Imagina-se já a encher as mãos com os seios de Poésy. Meter as mãos naqueles seios que explodem para fora do decote. Poésy está agora sentada direita. Tem a face protegida por uns óculos máscara, negros, em forma de borboleta, que lhe sobem do queixo até à testa. Por trás, os cabelos louros que faíscam e caem em rolos largos. Largo de ombros é também Émon, que se debruça sobre a beldade, depois de ter desligado o motor do automóvel, à beira dos penhascos. Ela afasta-o. Tem braços poderosos. É animal que desenvolve bons músculos.

Aproximam-se, vindas das redondezas, raparigas resolutas. Tomam posições estratégicas e telegénicas. Uma delas caminha, direita como uma tábua, de vestido vermelho justo, botas de cano alto vermelhas. Pára e enfrenta os dois sois, devidamente defendida por lentes escuras. Sobre uma rocha de modelo curvilíneo estende-se uma outra, a preto e branco e dois cinzas, de biquini, cabelo penteado para trás e lábios entreabertos. Ou então outra semelhante, mas a quatro cores, recosta-se num pormenor arquitectónico avulso, em forma de L tridimensional branco. Nua, vestindo o pescoço com um colarinho, mais uma toma posições, segura numa barra vertical, com o corpo contorcido. A Captiva veste um body em jersey preto, um conjunto em tiras que lhe apertam os ombros, os cotovelos, a cintura e os pulsos, presos ao todo. O cabelo é preto e liso, a linha dos olhos coberta por uma máscara vermelha, os lábios pintados com um material espesso. Abaixo, um soutien-gorge em metal, duas meias esferas com um nariz de pinguim. A Captiva está na confluência de forças de todas as outras. Emana emoções corporais que controlam física e psicologicamente as suas parceiras. Inicia o processo profundo de autoconhecimento, conduzido pela respiração-consciente. As raparigas repercutem este processo. É um processo de crescimento pessoal que desbloqueia tensões, liberta a energia sustida e expande a consciência.

Este renascimento libertário instala-se. Poésy afasta de novo Émon e levanta-se, no carro. Eleva os braços, salientando extraordinariamente os seios, redondos e suculentos. Abre os lábios. Pronuncia frases elaboradas. Fabrica um discurso de teoria pura, despido de contacto com a realidade. É um mergulho. Um corpo ascensional, que fura a atmosfera, contraria a gravidade. Uma ascensão acompanhada pelo desenrolar dos seus caracóis louros e brilhantes, que tomam diferentes configurações. Um ser físico que desenha uma linha com curvas que se opõem, um ser composto por curvas que se alteram. Émon saliva enquanto escuta a tese e sai de si mesmo, sai do seu fato verde e flutua sobre as raparigas, sobre os penhascos, todo matéria etérea coberta de saliva, pele, músculos e ossos etéreos numa viagem flanante, lenta, de emoção clara devidamente inalada e potenciada de bem-estar. Desce ao oceano, onde se introduz no ponto de intersecção das espadas de luz lançadas pelos dois sois.


— Django
































"A Cabine do Amador" (colectiva)
Espaço Avenida
Avenida da Liberdade, 211, 1º D, Lisboa
Quarta a Sexta, 18:00 - 22:00
Sábado e Domingo, 16:00 - 21:00
14 a 30 de Março de 2008































Espaço Avenida
Avenida da Liberdade, 211, 1º D, Lisboa
Quarta a Sexta, 18:00 - 22:00
Sábado e Domingo, 16:00 - 21:00
14 a 30 de Março de 2008


































Soraya Vasconcelos
"A Cabine do Amador" (colectiva)
Espaço Avenida
Avenida da Liberdade, 211, 1º D, Lisboa
Quarta a Sexta, 18:00 - 22:00
Sábado e Domingo, 16:00 - 21:00
14 a 30 de Março de 2008











O Verão é uma estação parva porque as moscas também são parvas e andam por todo o lado. Os seres humanos vão para a praia e as moscas ocupam o seu lugar. Estão por todo o lado e com ideias impecáveis, de mosca. Ideias glutinosas, que se agarram às paredes e sujam, como as de certo psiquiatra que, apanhando uma janela aberta, entrou para uma das páginas do jornal Público e ali ficou, impecável, claro.

Doutor, não pode explicar com maior clareza que o Homem é um animal e que portanto é um ente possuidor de agressividade e que isso é normal? E que é saudável deixar expandir a agressividade? Saudável para cada um e para todos — digamos, um país, o mundo. Mas o psiquiatra tem medo das demonstrações de vitalidade. Eis a sua visão: a civilização encarrega-se de entreter o Homem com uns espectáculos e etc., satisfaz-lhe as necessidades imediatas, tornando-o um ser pacificado. Circo e pão. Uma sociedade bonita, sem conflito. É este o rumo que não se pode perder.

E é isto que desejamos para nós próprios? Ou para os outros? É para isto que nos aplicamos, mesmo sem sabermos? Serão então bem-vindos os parvos, que se limitarão a viver de forma mais animal possível, mas expurgados da agressividade. Inconscientes, seguindo o dono (ou o líder). A civilização arrumada.

O pior pesadelo de alguém que morde a polpa da vida e preza a sua independência é imaginar que o inevitável terá de acontecer e que a sua vida é encaminhada por uma organização parda escondida por baixo de uma gabardina. Há a suspeita. Há, a tempos, quem o defenda. Admiro a frontalidade engravatada, o pesadelo viscoso que nos querem esfregar na pele, o vómito que me provoca. Vomito todo o conteúdo do meu aparelho digestivo até me restar unicamente a bílis, que cuspo, amarela, imitando as moscas, espalhando o ácido dissolvente que nos salva. Senhor doutor, arde-me tudo.

Mas a civilização é também um agente de violência. O excesso de civilização resulta em vontade de excessos. Gastronómicos, hooligânicos, ou a simples entrega aos prazeres da adrenalina, da agressividade primordial. É raro o ser humano que não tenha necessidade de sangue. Mesmo adormecido pelos encargos da sobrevivência — emprego, deslocações e outras coisas cansativas — ou adormecido pelo doce lar e pela TV. É uma entidade frustrada se não se entrega à violência. Aos rugidos, às ameaças, à pancadaria. Um ser vivo precisa de carnalidade activa. A organização e o controlo podem amolecer alguns. Todos os outros serão uma massa de frustrados, encurralados numa sociedade que os vigia. Podem tornar-se extremamente violentos. Porque se sentem presos, ou entediados. Mas não fazem guerras. As guerras são idealizadas pelos grandes civilizadores.



[Este texto tem por base o texto de opinião de Pedro Afonso, médico psiquiatra, publicado no jornal Público do dia dois de Agosto de 2008, inexplicavelmente.]