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Frederico Ferreira
Featuring Blasted Mechanism
"Tecnognose"
VPF Cream Arte, Galeria de Arte Contemporânea
Rua da Boavista, 84, 2º
Segunda a Sábado, 14:00 - 19:30
8 de Maio a 14 de Junho de 2008



Os discursos contemporâneos sobre a supremacia da ciência, os poderes ilimitados das novas tecnologias e a cibercultura integram um imaginário próprio, impulsionador de mitos, imagens e símbolos.

As novas tecnologias já não se centram na figura material da máquina e dos seus processos técnicos, mas na noção do virtual. Assim, também os antigos mitos industriais da mecanização da vida dão lugar aos novos mitos da cultura do virtual, que invocam imagens incorpóreas, avivando deste modo, a imaginação espiritualizada da técnica. Estas imagens assentam num fundamento ideológico que alia as realizações e aspirações tecnológicas a princípios característicos do gnosticismo.

Tecnognose, termo que dá nome à exposição, é utilizado para definir esta nova visão do mundo em que as tecnologias surgem como meios de superação do orgânico, do corpóreo, da efemeridade da vida, em suma, da condição humana.
Nesta mitologia transcendental, a figura principal é a representação de uma forma de subjectividade, liberta dos limites do corpo (ambição dos gnósticos), da identidade física, um ser de natureza espiritual (semelhante à dos detentores da gnosis), divinizado.

Em "Tecnognose", três corpos electrónicos, metafisicamente e moralmente neutros, suspensos no espaço, vão ganhando uma dimensão espiritual, que colocam ao serviço da humanidade, despertando um conhecimento (gnose) que permite o encontro do Homem com a sua essência eterna. Tal dimensão espiritual é-lhes transmitida por um computador ao qual eles estão ligados, através de um código sonoro que vai sendo assimilado e posteriormente difundido incessantemente.

Esta exposição dá continuidade a um trabalho conceptual e estético que Frederico Ferreira tem vindo a aprofundar. Através da intersecção dos domínios da arte e da ciência, o artista tem vindo a seguir uma linha de reflexão centrada em questões despertadas pelos médios que explora, a escultura e a multimédia. Peças de parede, de chão, suspensas são reflexões sobre a relação que o Homem estabelece com as novas tecnologias de informação e comunicação, os efeitos que estas exercem e a sua própria natureza. Interface #1 (2003), Interface #3 e #4 (2003), For Ever (2005), Between (2005), são alguns exemplos.

Através de um processo, com traços minimalistas, em que a obra de arte é inteiramente concebida pela mente antes da sua execução, nascem simultaneamente três esculturas sonoras que mantêm uma forte relação entre si a diversos níveis. Seguindo um vocabulário formal de reminiscências orgânicas proveniente de um imaginário que o artista tem vindo a aprofundar desde Pleroma (2007) estas esculturas são compostas por um núcleo plástico no qual está integrado o sistema electrónico.

Os núcleos plásticos são produto da repetição de uma determinada unidade modular, combinada de forma distinta, simétrica e assimetricamente, marca do efeito visual. Através de um movimento de torção processa-se o desequilíbrio da simetria que gera o surgimento de uma assimetria dinâmica, ou vice-versa. Estas estruturas por acção de um carregamento progressivo tornam-se centros de energia acústica, a qual é canalizada em diversas direcções, operando-se assim, a modelação do meio material envolvente — o ar. Portanto, nestas peças mutantes, factores como o tempo e o meio ambiente são transportados para os domínios da escultura.

Frederico Ferreira apresenta aqui uma abordagem ao campo expandido da escultura, em que o som, enquanto onda material caracterizada pela sua intensidade, altura e timbre, é encarado como limite do campo escultórico.

A harmonia entre as sonoridades que se propagam, concebidas pelos Blasted Mechanism, põe a descoberto, uma relação acústica entre as peças, qual orquestra de câmara, em que o maestro é o computador, e que nos sintoniza com o divino.


Mariana Roquette Teixeira

Frederico Ferreira nasceu no Porto em 1977. Licenciado em Artes Plásticas — Escultura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Lecciona as disciplinas de Desenho e Figura Humana no curso de Design de Moda e as disciplinas de Design Básico no curso de Design Textil no Citex, Porto. Vive e trabalha no Porto.

































André Banha
Segurei-te o pôr do sol
Rua da Boavista, 84, 2º
Terça a Sábado, 14:00 - 19:30
24 de Janeiro a 15 de Março de 2008





















João Fonte Santa
"Todos os dias a mesma coisa - carro - trabalho - comer - trabalho - carro - sofá - tv - dormir - carro - trabalho - até quando é que vais aguentar? - Um em cada dez enlouquece - um em cada cinco rebenta"
VPF Cream Arte, Galeria de Arte Contemporânea
Rua da Boavista, 84, 2º
Terça a Sábado, 14:00 - 19:30
28 de Setembro a 3 de Novembro de 2007


É um universo de ficção científica, uma pós-realidade, um planeta desolado, desértico, de luz ofuscante. Onde mulheres de biquini se passeiam ao sol com metralhadoras ao ombro, rapazes jogam futebol defronte de escombros de antiguidades arquitectónicas, destroços da civilização ficam abandonados no terreno. A desgraça e a destruição são acontecimentos comuns, esperados e inevitáveis.

As imagens não parecem verdadeiras, parecem saídas de uma banda-desenhada, algumas até divertidas, pelo absurdo. Retratam um quotidiano extraordinário, difícil de acreditar. Demasiado excêntrico, demasiado bom para ser verdade. A homogeneidade técnica (tinta da china sobre prata) acentuam este efeito de unidade espacial e temporal. Este lugar apocalíptico. Que é um engano. Porque os acontecimentos são reais, os desenhos são cópias exactas de fotografias publicadas na imprensa, têm tempos diferentes e a acção situa-se em geografias diversas (Nova Orleães / despojos do furacão Katrina, Bagdad / tropas americanas aquarteladas, Yunong / China / renovação urbana, Sknyliv / Ucrânia / desastre em espectáculo de acrobacias aéreas). Uma mediatização em segundo grau.

São imagens que transportam uma potencial ou efectiva violência. Porque nos atraem tanto? Porque é que este conjunto de desenhos é tão atraente? Noutro lugar, fora do quotidiano ocidental de classe média, monótono e repetitivo, existe uma zona de desgraça, o sonho de qualquer telejornal, onde é possível encontrar uma estimulação que abana a normalidade e torna o mundo um lugar perigoso. Um mundo de excepcional emoção.

Mas a observação mais interessante chega-nos de J. G. Ballard, em entrevista a Paulo Moura (Público, 2005): “Os seres humanos têm um grande apetite por violência. Estão muito interessados na dor e na morte. Talvez por muito boas razões biológicas. O Homo Sapiens emergiu há uns cem mil anos; a linguagem há 50 mil; a primeira cidade, no Iraque, foi construída há dez mil anos. E nos últimos 50 anos vivemos numa sociedade completamente nova, altamente organizada e consumista, que pôs os nosso cérebros a apodrecer. […] A maioria dos animais selvagens que hoje associamos a África andavam à solta na Europa ocidental há 20 mil anos. Os nossos antepassados caçavam estes animais, lutavam com eles. Nós não somos os seres racionais que pensamos ser. Somos selvagens. Os nossos sistemas nervosos centrais, os nossos cérebros, os nossos instintos, os nosso reflexos estão adaptados à vida de um caçador solitário. Ou de grupos de dez ou 12 caçadores, não mais. Os seres humanos são perigosos e têm imaginações poderosas. De repente meteram-nos neste mundo, em que a individualidade é reprimida, em que não podemos fazer praticamente nada…”

E faz-se a ligação com o título da exposição (que é a tradução de um slogan pintado numa parede junto à linha do Metro de Londres entre Ladbroke Grove e Westbourne Park pelo grupo de agitadores radicais King Mob, na década de 1970. Outra frase: "I don't believe in nothing - I feel like they ought to burn down the world - just let it burn down baby".), que, por si só, é uma outra exposição. Sem dúvida, a vida já foi mais selvagem. Era mais dura, mais livre, mais inesperada, mais perigosa. Ainda não se tinham inventado os empregos, com horários certos e salários certos, somente trabalho e vagabundagem ou a sorte de ser um privilegiado.

Nuno Marques Mendes