Este fantasma iniciado e aparecido nos confins do Sei Lá Onde honrou-me com surpreendentes confidências antes de se evaporar para sempre. Isto porque podia falar comigo em inglês. O Kurtz original fizera uma parte da sua educação na Inglaterra, e — como ele próprio teve a bondade de me dizer — simpatizava com aquilo que devia simpatizar. Nascera de mãe meio inglesa e pai meio francês. Toda a Europa contribuíra para fazer o Kurtz; e desde logo eu soube com muitos pormenores que a Sociedade Internacional para a Supressão dos Costumes Selvagens o encarregara de fazer um relatório para sua orientação futura. E ele escrevera-o. Vi-o. Li-o. Era eloquente, vibrava de eloquência mas parece-me que excessivamente sublime. Dezassete páginas de letra apertada, que teve tempo de encher! Mas talvez o tenha feito antes de os seus nervos desafinarem — digamos — e ter-lhe dado para presidir a certas danças da meia-noite que terminavam com indescritíveis ritos e lhe eram — tanto quanto a minha relutância apurou do que várias vezes ouvi contar — dedicadas compreendem? — a ele, Sr. Kurtz. Mas era um bom naco de prosa. Embora à luz de posteriores conhecimentos o parágrafo inicial me pareça agora bem significativo. Começava com o argumento de que nós, brancos, tão desenvolvidos como estávamos, «por certo parecíamos [aos selvagens] fazer parte das criaturas sobrenaturais — e nos aproximávamos deles com um poder quase divino», etc., etc. «Pelo simples exercício da nossa vontade, podíamos exercer esse quase ilimitado poder em nome do bem», etc., etc. A partir daqui caía em plena exaltação e conseguiu arrastar-me com ele. Perorava magnificamente embora seja difícil reproduzi-lo, como devem calcular. Deu-me a impressão de uma augusta Benevolência a dominar uma Imensidade exótica. Fez-me vibrar de entusiasmo. Era o ilimitado poder da eloquência — das palavras — de nobres e incendiadas palavras. Não dava sugestões de ordem prática que interrompessem a corrente mágica das frases, a não ser que uma nota de rodapé na última página, evidentemente rabiscada muito mais tarde e com pulso pouco firme, pudesse considerar-se exposição de um método. Simplicíssima, como era, e no final de um comovente apelo a toda a espécie de sentimentos altruístas ofuscava-nos, luminosa e terrífica, como um raio num céu sem nuvens: — «Exterminai todas as bestas!» Curioso é reparar que aparentemente se esquecia do notável post-scriptum; pois mais tarde, e já senhor de si, várias vezes insistiu comigo para eu olhar pelo seu «panfleto» (assim lhe chamava), como se estivesse certo da salutar influência que iria ter na sua carreira. Tirei informações completas sobre estas coisas e também me vi obrigado, pela forma como tudo aquilo correu, a cuidar da sua memória. Fiz o bastante para ter agora irrecusável direito de o votar, se quisesse, ao repouso eterno do caixote do lixo do progresso, entre dejectos de toda a espécie e os gatos mortos — em sentido figurado — da civilização. Mas não fui capaz, estão a perceber?


Joseph Conrad, O Coração das Trevas, 1902
Tradução de Aníbal Fernandes, Editorial Estampa, 1983




































































Largo do Chiado, nº 8
Segunda a Sexta, 12:00 - 20:00
23 de Maio de 2008 a 25 de Julho de 2008

Curador: Ricardo Nicolau

"Um homem entre quatro paredes", 2008
Projecção vídeo, cor, som mono, sem fim
Dimensões variáveis

"O cancro esconde-se nos cantos", 2008
Paredes de Pladur, madeira













[Émon. Exercícios de estilo. 5] Na casa cubista todos os planos estão quebrados. Caídos ou deslocados. De todas as vistas se observam os alçados metidos num só. De uma vista vêm-se todas as vistas. E às vezes alguns interiores. Um plano horizontal passa a vertical e Émon estatela-se no cimento fresco, amachucando-se. Amassando o polo verde e as calças verdes, que logo readquirem a sua elasticidade e postura descontraída, mas o rapaz de sorriso sincero enche-se de feridas e marcas negras no corpo, particularmente nas articulações. Agarrado a um joelho, não refeito da queda, precipita-se na direcção do céu azul, cai por andares curvos rasgados de massas rectilíneas, por uma abertura curvo-rectilínea de paredes duras, suaves e macias, em direcção ao azul, rodando sobre si, queda alucinada completada na fusão de todos os elementos, uma superfície preta espelhada. Preto brilhante, brancos e cinzas, mas sobretudo escuridão. A meio do plano uma criatura despida sentada num cadeirão, de costas direitas, iluminada por detrás. A luz cai-lhe na nuca espalhando-se pelos ombros em gradações de cinzas, entregando realismo à extensão da pele, revelando poros, pilosidades amigáveis, composição muscular em rotundidades. A criatura tem o queixo assente no polegar, o rosto em sombra, os pés descalços no chão, a pose alheia. Uma criatura número dois desliza, impecavelmente despida, expondo uma barra tintada de preto a meio do corpo e a zona superior em branco espesso. A criatura número um ergue-se, deslizando em direcção à dois que a recebe e se encaixa nela soltando uma aberração pelo pescoço, perdendo a cabeça em espirais destroçadas multiplicantes, formações replicantes que preenchem o fundo negro com invasões brancas de geometrias irregulares.

A cor regressa em tons amarelos e laranja. Uma fornalha estelar apresenta-se a Émon. Radiações luminosas que não o cegam, pela frente passam planetas vermelhos que se destacam, possuidores de um halo nos seus limites. Émon está espatifado, apresenta equimoses ruidosas e laivos de sangue. Está caído e mexe-se com dor. À sua direita há um grande rolo de manteiga, estriado, que emite calor. Desloca-se e absorve-o. Brilhos de espelho partido, realidades difusas dispostas num plano que Émon atravessa estilhaçando — seios rosa de mamilos carnudos e vermelhos onde os lábios se colocam, olhos, papoilas, pétalas, quadrados justapostos de diferentes cores. Émon penetra distintos objectos, é penetrado por outros, numa sucessão que não tende para um fim, chicoteado por fragmentos, cores, lascas de madeira que lhe retiram a roupa e se fazem abrasivos na pele. Uma borboleta vermelha bate-lhe no rosto enchendo-o de pó. Uma animação de grande fisicalidade enche o espaço, afaga-lhe o corpo, a grande velocidade, imparável. São cores que o enchem de prazer. Um turbilhão. Não pára.

Continua. Sensações sucedem-se. Molhado. Viscoso. Chupado. Duro. Escuro. Aguçado. Inteligente. Émon é coberto por uma molécula húmida e cuspido para os braços da casa cubista, branca, possuidora de tentáculos rectilíneos e curvos que se abrem e fecham numa fresta de céu. O rapaz pegajoso atravessa a fenda e pousa no azul com estrondo, os membros num embate final, as nádegas esborrachadas, omoplatas sofridas, a cabeça afundada — salva amigavelmente. As mãos tocam a quietude. Uma perna ergue-se, flectida no joelho, possibilitando à planta do pé e dedos sentidos pacificadores. Descontracção assistida espalhada a todo o ser. Sorriso vencedor. Émon alonga-se, espoja-se, sente-se invadido por uma vegetação rasteira que o massaja e festeja, entrando-lhe nos sovacos, nas orelhas, na cabeça descendo para a testa. Nas pernas, no abdómen, no peito. As mãos sentem-no, percorrem-no. Um mamilo, uma coxa. A vegetação à sua volta e debaixo de si. Uma respiração funda. Uma brisa. Um raio de sol.


Django













Caros leitores, mudemos de programa. Sejamos adultos. E sejamos imaginativos. Avancemos de peito aberto. E sobretudo não compliquemos: novo paradigma económico? regresso da política? macro-regulação? Falta aqui um toque de caos e de vida — tenho de admitir que gosto deste ambiente apocalíptico de final de civilização que nos vem seguindo, os choques petrolíferos que deixam a economia planetária virada do avesso, os carros à beira da estrada sem gasolina e a revolta a generalizar-se. A Banca a falir levando tudo de arrastão: a macroeconomia, o petróleo, tudo virado do avesso de novo.

A mãe do apocalipse: a ruptura do equilíbrio geoestratégico, a emergência de novas polaridades: novos entusiasmos, novos antagonismos, os novos wannabes globais, a força do embate de civilizações. São tempos efervescentes. O futuro desenrola-se com mais propriedade e realidade. O mundo heterogeniza-se. As sociedades transformam-se, deixam-se contaminar, adaptam-se a novas situações. Quem quer o passado de volta? O passado burguês, chato e sossegado.


As sociedades podem elevar-se em formas extraordinárias. Podem admitir e admirar novos centros de poder. Novas periferias de poder. Poderes públicos, económicos, intelectuais, civis, rivalizando entre si, concorrendo com serviços similares, partilhando a ribalta. Protagonistas de igual direito. Administrações públicas alternativas, financiadas por corporações. Estados dentro de Estados. O poder fragmentado. Regresso à política, pode ser — mas a política alargada a toda a sociedade e não a tradição unívoca estatal. Regulação — independente, privada, socializada, tanto faz — micro-regulação ágil, não intrusiva, não limitadora, mas fiscalizando, escrutinando todos os poderes, em todas as frentes, devidamente descentralizadas. Pensem nisto.































Gonçalo Sena, Diogo Evangelista
"I used to be indecisive... now I'm not so sure."
Alecrim 50
Rua do Alecrim, 50, Lisboa
Segunda a Sexta, 11:00 - 19:00
Sábado, 11:00 - 13:30, 16:00 - 19:00
27 de Maio a 28 de Junho de 2008



[Fotografias: 1 e 2 Diogo Evangelista, 3, 4, 5 e 6 Gonçalo Sena. Direitos reservados.]






A depressão económica mina o mundo. O desaparecimento de uma actividade económica e comercial intensa é acompanhado do retorno a uma economia natural baseada na agricultura e na permuta; a decadência das cidades e da moeda ocasiona uma fraccionação da vida social e um desmoronamento dos poderes. Por outro lado, os governos e os seus agentes perdem o domínio sobre os cidadãos, os quais se deixam conduzir passivamente ou procuram eximir-se o mais que podem às suas obrigações, pela fuga ou pela revolta, utilizando todas as escapatórias possíveis. O declínio do espírito cívico tem consequências particularmente graves sobre o recrutamento do exército; este é na totalidade composto de mercenários. Os bárbaros que espreitam as fronteiras encontrarão a fazer-lhes frente tropas leais, é certo, mas a que falta convicção patriótica. Enfim, as forças intelectuais e religiosas revelam tendência para se retraírem; a crise da economia e a decadência das cidades no Ocidente não propiciam de modo algum um verdadeiro movimento cultural.


HIP-EA-70













Vida Contemporânea — Revista mensal de estudos económicos, financeiros, sociais e literários. Director e proprietário: Cunha Leal (1888-1970). Francisco Pinto da Cunha Leal foi uma pessoa muito ocupada. Na década de 1910 foi director dos Caminhos de Ferro de Angola, esteve em França durante a 1.ª Guerra Mundial integrando o Corpo Expedicionário Português, voltou para ocupar o cargo de director-geral dos Transportes Terrestres. Apoia Sidónio Pais, é eleito deputado em 1918, participa na Revolta de Santarém de Janeiro de 1919. Na década de 1920 é ministro das Finanças, presidente do Governo, ministro do Interior, director dos jornais O Popular e O Século, reitor da Universidade de Coimbra, líder do Partido Nacionalista, fundador da União Liberal Republicana, apoiante do golpe de estado de 28 de Maio de 1926, opositor da Ditadura, governador do Banco Central de Angola. Em 1930 encontramo-lo preso, acusado de conspirar contra o Governo, e deportado para os Açores. Evadir-se-á, será amnistiado, em 1934-1935 dirigirá o jornal A Noite e a revista Vida Contemporânea, sendo deportado de novo em 1935. Nas décadas seguintes continua a dedicar-se à oposição ao Estado Novo.

[Fontes: Lexicoteca, Círculo de Leitores, Tomo XI; Manuel Amaral, O Portal da História, arqnet.pt]








A alma portuguesa caracteriza-se por uma doentia sensibilidade, que se manifesta por formas aparentemente contraditórias: por um lado, a exaltação hiperbólica das glórias do passado; por outro lado, a apreciação pessimista das misérias do presente. Somos como os velhos fidalgos excessivamente maltratados pelo destino, que se comprazem em exagerar a grandeza da sua queda, fazendo para isso subir a nível do ponto donde vieram e baixar o nível do ponto aonde chegaram. Somos ainda como o mendigo que, ao receber do transeunte parcamente caritativo a magra esmola, tem uma chama estranha a iluminar-lhe as pupilas e lhe diz com voz rouca e misteriosa: Ah! Se o senhor pudesse adivinhar o homem que eu já fui!

Há uma explicação plausível para êste modo de ser espiritual. A nossa história tem, como as histórias dos outros povos — nem mais, nem menos do que elas — altos e baixos, acções nobres e acções reles, façanhas heroicas e manifestações de poltronaria. Quiseram, porém, os fados que a trajectória portuguesa tivesse influenciado sobremaneira a evolução da civilização mundial e que, em grande parte, os nossos empreendimentos colectivos não estivessem em proporção com a nossa capacidade material, com as nossas possibilidades práticas de execução. Desta maneira, a história de Portugal surge como um fogacho, que se erguesse muito alto para logo quási se extinguir. Isto criou em nós a propensão para os sonhos épicos e para os contrastes bruscos da suma grandeza e da suma miséria.

Assim, pois, falta-nos equilíbrio espiritual e bom senso — qualidades aliás muito mais raras do que se supõe. Um exame de consciência, mesmo superficial, deve convencer-nos disso. Um grande esfôrço intelectual pode fazer-nos adquirir o sentimento das proporções, a noção das realidades universais, condição indispensável para que sejamos mais comedidos em quebrar a paz e sossêgo de que gozam nos sarcófagos das catedrais os «barões assinalados» dos tempos idas e para que possam tornar-se menos desageitados e mais eficientes os homúnculos fabricados em série pela fraqueza genética da era contemporânea. Oxalá as gerações presentes e futuras ousem lançar ombros à obra de resgate espiritual e de renovação material, requerida imperativamente pelas circunstâncias!

Que probabilidades de sucesso terá um empreendimento desta natureza? Carecemos de fôrça capitalista, carecemos de capacidade técnica, carecemos de preparação intelectual. A-par dêste passivo, muito para considerar, podemos inscrever no nosso activo alguns valores que não são também despiciendos. Temos um vasto domínio colonial, que nos permite esperanças de rehabilitação económica. Por outro lado, estamos assistindo neste momento, por êsse mundo além, ao curioso espectáculo dum capitalismo ou em transes de falência ou em via de mudar de pele, como os ofídeos. E, sobretudo, vivemos em época em que a consciência e a sensibilidade individuais e colectivas estão rompendo com os moldes clássicos. À primeira vista dir-se-ia que não poderia oferecer-se-nos melhor oportunidade do que esta para nos compenetrarmos dos interêsses, das paixões, das ideas e dos métodos de acção do homem contemporâneo, para nos aproximarmos dêle, galgando de vez a distância que dêle nos vem separando há muitas décadas.

O primeiro grande objectivo de qualquer programa de acção nacional tem de ser precisamente êste de conseguir a sincronização da mentalidade portuguesa com a dos povos civilizados. Todos os outros objectivos empalidecem e se tornam secundários em face dêste. Educar os elementos selectos da nossa sociedade, de modo a que se possam tornar depois os grandes apóstolos e propulsores da educação das massas, da sua europeização — tal é a idea que hoje se está enraizando em todos os sectores da vida portuguesa.

Se o acôrdo é quási unânime no que diz respeito ao enunciado do problema, já o mesmo não podemos afirmar no que se refere ao seu conteúdo. É que hoje em dia carece em absoluto de importância o tipo do europeu médio, que em tempos não muito distantes predominava, sob o ponto de vista espiritual e material, em tôdas as sociedades civilizadas do velho Continente. Os extremistas não passavam então de falanges reduzidas. Actualmente, nas massas populacionais da Europa o papel principal cabe a dois tipos irredutíveis, diametralmente opostos, a que correspondem duas mentalidades entre as quais não é possível estabelecer nenhuma espécie de contemporização.

Qual destas mentalidades deve ser tomada, como modêlo? Dividem-se, como é natura!, as opiniões. E, no meio da pugna acesa, quási não há lugar para os que, timidamente, pretendem entrincheirar-se em posíções ideológicas intermédias. Há, de facto, que constatar, com resignada calma, que, momentâneamente, é insignificante a função de todos quantos, não pondo limites à sua curiosidade intelectual, se não deixam, em todo o caso, arrastar pelo desejo de acção desordenada e frenética, característico da época contemporânea, e aspiram a que nem as suas ideas deixem de ter fôrça impulsora, nem o seu dinamismo deixe de ser sempre norteado por ideas consentâneas com «a eminente dignidade da natureza humana» — expressão que, a-pesar-de velha e revelha, não tem perdido em beleza com o uso.

Claro está que a onda do desvario há de ir perdendo em altura, à medida que se vá acalmando a tormenta económica que se desencadeou por êsse mundo além. A sucessão vertiginosa dos fenómenos económicos provocou a ruptura do equilíbrio espiritual e material que nos fôra legado pelo século transacto. Há que reconstituir novo equilíbrio com os materiais que a tempestade deixar amontoados no solo de civilizações que só podem renovar-se inteiramente pela acção providencial dêstes cataclismos. E a hora dos juízos calmos, que é preciso não confundir com juízos tímidos, há de voltar. A sua função educadora terá então a plena eficiência de que hoje, infelizmente, carece.

Teve a Vida Contemporânea a boa sorte de juntar em tôrno de si um escol de homens cultos, que estudam os acontecimentos do seu tempo com imparcialidade e interêsse, Alguns nomes eminentes do nosso reduzido sector intelectual deram já ao primeiro numero desta Revista a honra da sua colaboração. Outros virão juntar-se a êles, animados uns e outros de profundo amor pela sua terra, não o exibindo, porém, com gritos ou afirmações de incómoda estridência, mas com actos dignificadores da sua condição natural de portugueses.

Estamos assim colocando as primeiras pedras dum edifício, que virá, porventura, a ser modesto, mas a que a nossa paixão quereria emprestar linhas sóbrias e harmoniosas. O passado será evocado de quando em quando, com calma, sem histerismos patrioteiros, mas com a consciência do valor da continuidade histórica no país que, dentro da velha Europa, há mais tempo soube estabilizar as suas fronteiras, defendendo-as eficazmente sem o auxílio de invencíveis obstáculos naturais. O presente será encarado como é, com as suas misérias, que não pretendemos ignorar, mas também com as suas possibilidades, que importa não desconhecer. O futuro será idealizado como se nos afigura que deva ser.

As portadas do nosso lar estão escancaradas para todos os portugueses de alma lavada e aberta ao progresso, que queiram vir trazer-nos, para a obra educativa do agregado nacional, a sua contribuição, grande ou pequena. que seja, porque esta Revista não é feita para registar apenas as opiniões dos consagrados. Aqui confraternizaremos, aqui sonharemos em comum as prosperidades duma pátria rejuvenescida, dentro da qual o homem tenha a consciência de que possui uma forte individualidade, curvando-se, em todo o caso, às exigências da solidariedade social. E, quando os acontecimentos e os homens pareçam apostados a desanimar-nos, recobraremos alento na contemplação de panoramas mais distantes, de perspectivas mais sedutoras.

A Vida Contemporânea, grata aos bons portugueses que acamaradaram na suas primeiras páginas, aguarda confiadamente a visita dos muitos que ainda hão de vir.

[in Vida Contemporânea, n.º 2, Junho de 1934]











































Pedro Neves Marques
"Imagética abreviada"
Rua do Patrocínio, 67 E, Lisboa
Terça a Sábado, 14:30 - 19:30
10 de Maio a 14 de Junho de 2008












Django era um male escort. Um rapaz moreno, esguio, de ombros redondos e cabelo encaracolado. Gostava de pôr uns Ray-Ban de lentes castanhas e hastes douradas que lhe saíam para fora da cara. Nos tempos livres escrevia. Conheci-o uma noite, num restaurante. Cruzámo-nos à entrada da casa-de-banho. Estava genuinamente distinto, de fato completo cinza-metalizado e gravata escura. Olhou-me, entreabriu os lábios bojudos e seguiu.

Nessa noite dormimos juntos. Descobrimos compatibilidades e afinidades de escrita. Planeámos projectos em conjunto, elaborámos uma fusão. Roubei-lhe umas personagens. Tinha-as muito bem delineadas e percebi que também ele era bem delineado e uma personagem, ou uma das suas personagens, porque foi vestir umas cuecas pretas, umas botas de cowboy beije, colocou um cigarro na orelha e foi-se pôr nesta figura em cima dos papeis que analisávamos, com a carne morena e as pernas de manequim cheias de vida, fazendo-me sentir demasiado vestido.

Django entrara no mundo laboral como house model no studio de uma fashion designer italiana, sedeada em Milão, num edifício de fachada amarela e de interior minimalista — chão em cimento, portas de vidro fosco e paredes brancas. Django vestia e despia protótipos como profissão e era apalpado por todo o staff, que verificava os ombros, os colarinhos, subia e descia botões. Mais tarde conheceu pessoas e percebeu que ganhava mais dinheiro acompanhando-as em roteiros de estilo e prometido requinte, audácia e intensidade. O estilo é sóbrio. A audácia é calculada.

Se o observarmos com uns binóculos de longo alcance, através de uma cortina transparente de um quarto de hotel, podemos vê-lo a dançar de botas e cuecas, em cima da cama, com os braços para cima, de mãos juntas e sovacos expostos. Estará a dançar sozinho ou com um amigo, eu por exemplo. Mas nunca faz um striptease para os clientes. Trata-os mal. Não aceita presentes, não faz programas de fim-de-semana. Não lhe pagam estadias. Não beija. É mau. É um duro negociador e os duzentos e cinquenta euros que lhe pagam por hora não incluem intimidades. Incluem uma leve percepção. A promessa adiada de um corpo revelado que se anuncia quente por baixo de uma camisa desabotoada nas primeiras casas.

Django é um teaser e adora mostrar as pernas. Dentro de um carro, seminu, na varanda, nos corredores de um hotel, numa discoteca obscura. Ontem juntava ao seu guarda-roupa favorito umas joelheiras pretas e uma t-shirt de alças. Estava no centro da pista de dança, electrizada, rodeado de zombies, e ondulava o corpo. Eu olhava-o nos olhos e nesse momento o som resvalou, desceu sobre a multidão como uma avalanche. Todos os sons juntos e distorcidos. O impacto causava surdez e loucura.


Nuno Marques Mendes














































Frederico Ferreira
Featuring Blasted Mechanism
"Tecnognose"
VPF Cream Arte, Galeria de Arte Contemporânea
Rua da Boavista, 84, 2º
Segunda a Sábado, 14:00 - 19:30
8 de Maio a 14 de Junho de 2008



Os discursos contemporâneos sobre a supremacia da ciência, os poderes ilimitados das novas tecnologias e a cibercultura integram um imaginário próprio, impulsionador de mitos, imagens e símbolos.

As novas tecnologias já não se centram na figura material da máquina e dos seus processos técnicos, mas na noção do virtual. Assim, também os antigos mitos industriais da mecanização da vida dão lugar aos novos mitos da cultura do virtual, que invocam imagens incorpóreas, avivando deste modo, a imaginação espiritualizada da técnica. Estas imagens assentam num fundamento ideológico que alia as realizações e aspirações tecnológicas a princípios característicos do gnosticismo.

Tecnognose, termo que dá nome à exposição, é utilizado para definir esta nova visão do mundo em que as tecnologias surgem como meios de superação do orgânico, do corpóreo, da efemeridade da vida, em suma, da condição humana.
Nesta mitologia transcendental, a figura principal é a representação de uma forma de subjectividade, liberta dos limites do corpo (ambição dos gnósticos), da identidade física, um ser de natureza espiritual (semelhante à dos detentores da gnosis), divinizado.

Em "Tecnognose", três corpos electrónicos, metafisicamente e moralmente neutros, suspensos no espaço, vão ganhando uma dimensão espiritual, que colocam ao serviço da humanidade, despertando um conhecimento (gnose) que permite o encontro do Homem com a sua essência eterna. Tal dimensão espiritual é-lhes transmitida por um computador ao qual eles estão ligados, através de um código sonoro que vai sendo assimilado e posteriormente difundido incessantemente.

Esta exposição dá continuidade a um trabalho conceptual e estético que Frederico Ferreira tem vindo a aprofundar. Através da intersecção dos domínios da arte e da ciência, o artista tem vindo a seguir uma linha de reflexão centrada em questões despertadas pelos médios que explora, a escultura e a multimédia. Peças de parede, de chão, suspensas são reflexões sobre a relação que o Homem estabelece com as novas tecnologias de informação e comunicação, os efeitos que estas exercem e a sua própria natureza. Interface #1 (2003), Interface #3 e #4 (2003), For Ever (2005), Between (2005), são alguns exemplos.

Através de um processo, com traços minimalistas, em que a obra de arte é inteiramente concebida pela mente antes da sua execução, nascem simultaneamente três esculturas sonoras que mantêm uma forte relação entre si a diversos níveis. Seguindo um vocabulário formal de reminiscências orgânicas proveniente de um imaginário que o artista tem vindo a aprofundar desde Pleroma (2007) estas esculturas são compostas por um núcleo plástico no qual está integrado o sistema electrónico.

Os núcleos plásticos são produto da repetição de uma determinada unidade modular, combinada de forma distinta, simétrica e assimetricamente, marca do efeito visual. Através de um movimento de torção processa-se o desequilíbrio da simetria que gera o surgimento de uma assimetria dinâmica, ou vice-versa. Estas estruturas por acção de um carregamento progressivo tornam-se centros de energia acústica, a qual é canalizada em diversas direcções, operando-se assim, a modelação do meio material envolvente — o ar. Portanto, nestas peças mutantes, factores como o tempo e o meio ambiente são transportados para os domínios da escultura.

Frederico Ferreira apresenta aqui uma abordagem ao campo expandido da escultura, em que o som, enquanto onda material caracterizada pela sua intensidade, altura e timbre, é encarado como limite do campo escultórico.

A harmonia entre as sonoridades que se propagam, concebidas pelos Blasted Mechanism, põe a descoberto, uma relação acústica entre as peças, qual orquestra de câmara, em que o maestro é o computador, e que nos sintoniza com o divino.


Mariana Roquette Teixeira

Frederico Ferreira nasceu no Porto em 1977. Licenciado em Artes Plásticas — Escultura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Lecciona as disciplinas de Desenho e Figura Humana no curso de Design de Moda e as disciplinas de Design Básico no curso de Design Textil no Citex, Porto. Vive e trabalha no Porto.



































Nádia Duvall
Rua da Boavista, 84, 2º
Segunda a Sábado, 14:00 - 19:30
8 de Maio a 14 de Junho de 2008

































João Serra
Vera Cortês, Agência de Arte
Avenida 24 de Julho, 54, 1º Esq
Terça a Sexta, 11:00 - 19:00
Sábado, 15:00 - 20:00
2 de Maio a 14 de Junho de 2008


"Nos últimos anos tenho vindo a pensar os subúrbios de Lisboa num sentido extra moral. Quando acreditamos que uma certa fotografia mais não faz do que documentar, subtraímos-lhe muito do seu potencial. Ao isolar, apropriar e descontextualizar pedaços de realidade, a fotografia permite ver outras coisas dentro e fora da própria imagem. [...]"













Entramos, portanto, numa nova era. Entramos oficialmente no futuro, com medidas do passado, e um passado de pesadelo, real ou ficcionado. Isto já aconteceu antes, o Estado asfixiante. Não é novidade. Um dia acordamos e vemo-nos cercados pelos dedos do Governo da Nação, que deixam marcas indeléveis em toda a vida social. Os dedos ocupam-se de tudo — além do habitual e compreensível tal como saúde, justiça e segurança, sobriamente — ocupam-se da planificação global da economia do país, orientam e acarinham negócios privados, introduzem-se nas administrações de empresas, influenciam furtivamente a acção do mercado de capitais, negoceiam directamente com investidores estrangeiros, recuperam empresas falidas. Cruzam-se connosco na esfera privada, dizem-nos o que comer, impõem-nos tecnologias, taxam-nos serviços que não precisamos. Justamente o que tinham prometido: governação socialista. Nós pensávamos que isso já tinha acabado, e achávamos estranho que sectores do partido que sustenta este Governo estivessem insatisfeitos, que ansiassem por mais socialismo, e eu que pensava que estavam equivocados — que mais poderiam desejar? O Estado já se ocupa de tudo, é uma nanny de pêlo na perna.

Sem qualquer dúvida, o actual Governo é socialista. À moda europeia, convenhamos, não de linha dura. Quem esperava um governo liberal enganou-se redondamente. Não há governos liberais na Europa. São todos dirigistas e controladores. A pouca responsabilidade que entregam à sociedade é por necessidade ou obrigação. Por necessidade porque não têm dinheiro para investir, porque têm défices pouco recomendáveis. Caso contrário aí estariam, a comandar por inteiro as economias nacionais. A actual recessão é um momento feliz para estas mentes voluntariosas.

Em Portugal todos estes factores estão ampliados. Porque é um hábito nacional este Estado grande e esponjoso, que além do mais é desejado por larga maioria dos cidadãos. E esta molécula expansiva precisa de controlar tudo para manter a sua integridade. Precisa de limitar a liberdade individual que põe em causa a coesão do colectivo — o colectivo estatal, burocrático, impante. Que necessita sugar tudo à sua volta para se alimentar. Esquecendo-se da função para que foi criado, preocupado com a sua pessoal sobrevivência. E o resultado é uma sociedade infantil. E o horror é a obsessão burocrática — porque mesmo simplificada e de moderna tecnologia o objectivo é sempre aumentar a eficácia do controle. E é este o risco: quando se deseja um Estado nanny, quando se dá tanto poder a um órgão de soberania, leva-se com o pacote todo.

Em alguns países as câmaras de vídeo são omnipresentes no espaço público e a discussão em torno da vigilância é acesa. Em Londres existe uma câmara para cada quatro habitantes. Mas não sabem o melhor. Eu até me rio — rio-me para as câmaras e digo adeus. Em Portugal instalou-se a vanguarda tecnológica e vamos desfrutar o inimaginável: o dispositivo electrónico de matrícula. Tem sigla e tudo: DEM. Um chip instalado em qualquer viatura autorizada a circular em auto-estradas, que identifica e transmite informações sobre o veículo e o condutor, acessíveis a diversas entidades, em diferentes níveis e com possibilidade de cruzamento de dados segundo complicadas e opacas disposições redigidas no Decreto-Lei 612/2008. A instalação é obrigatória e a despesa fica a cargo do cidadão. Qualquer possuidor de automóvel ficará marcado electronicamente. Uma tatuagem digital — um sofisticado fascist touch. Cada vez mais o Estado se torna um inimigo ou uma entidade da qual nos temos de proteger.

O objectivo inicial desta aventura, em 2008, era melhorar a segurança rodoviária e diminuição da sinistralidade. E para o Governo era tudo muito simples: tratava-se “um upgrade tecnológico da matrícula tradicional, permitindo evoluir do sistema de identificação visual de veículos para outro, mais avançado, de detecção e identificação electrónica dos mesmos”. Nada do outro mundo. Quase em anexo previa-se outra utilidade para o chip: o pagamento de portagens e outras taxas rodoviárias. Agora, em Fevereiro de 2009, o grande objectivo é o pagamento de portagens, tudo o resto foi suavizado. Não poderemos, depois de aplicada a lei, pagar portagens da forma que desejarmos. Temos o chip obrigatório em operação, pronto para acumular estas e outras despesas e operacionalidades que aditamentos sucessivos à lei decidirem — porque fabricar leis é a coisa mais simples e a que mais nos dedicamos em Portugal. Esta obrigatoriedade tem um nome: prepotência ou ausência de direito de escolha.

Agora estamos de luto. Como pudemos ser tão descuidados? Não deixámos claro que não queríamos este controlo. Não queremos o Estado metido na nossa cama – mas agora já não falta muito. Mas provavelmente a coisa também funcionará em sentido contrário, e os cidadãos cada vez mais quererão meter-se na cama com o Estado. Abre-se um fluxo imparável. Os cidadãos quererão vingança, quererão escapar a este assédio e arranjarão formas escapar ao cerco que se vai cerrando cada vez mais à sua volta – vão gostar do sabor do sangue. E não vão querer pagar para serem comidos. Irão preferir comer.

[Cinicamente o Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações anuncia numa nota de imprensa: “O DEM é um projecto inovador com impactos positivos na modernização e competitividade da economia portuguesa: vem dinamizar o sector da telemática e criar simultaneamente uma oportunidade de negócio para as empresas na área das novas tecnologias na ordem dos 150 milhões de euros”. Deveremos agradecer?]

Podemos sempre continuar a reclamar:

www.presidencia.pt (Escreva ao Presidente)
www.ps.parlamento.pt (Contacte-nos)
www.portugal.gov.pt (Contacte o Governo)
gseaopc@moptc.gov.pt (Secretário de Estado Adjunto,
das Obras Públicas e das Comunicações: Paulo Campos)





A primeira finalidade dos aparelhos de mistura era tornar ininteligíveis as mensagens, sem código de mistura. Um outro emprego dos misturadores de discurso poderia ser impor o controlo do pensamento à escala das massas. Consideremos o corpo humano e o sistema nervoso como aparelhos de reconstituição. Um vírus tão comum como o da constipação poderia sensibilizar o sujeito e torná-lo capaz de reconstituir mensagens. Algumas drogas, tais como o LSD e Dim-N, poderiam também servir de meios de reconstituição. Aliás, os mass media poderiam sensibilizar milhões de pessoas a receberem versões misturadas da mesma série de dados. Lembremos que quando o sistema nervoso do homem reconstitui uma mensagem misturada, esta mensagem apresenta-se ao sujeito como ideias próprias suas que acabaram de lhe ocorrer, o que de facto aconteceu.

Tire-se uma carta da manga. Na maioria dos casos, não haverá suspeitas acerca da sua origem. Pelo menos é o que acontece com o leitor comum de jornais que recebe a mensagem misturada sem juízo crítico e pressupõe que esta reflecte as suas próprias opiniões independentemente formadas. Em contrapartida, o sujeito pode reconhecer ou suspeitar da origem exterior das vozes que literalmente irrompem do seu cérebro. Temos então a síndroma clássica da psicose paranóica. Uma pessoa ouve vozes. Podemos fazer ouvir vozes a quem quer que seja com técnicas de mistura. Não é difícil expor uma pessoa à mensagem realmente misturada podendo nós tornar inteligível uma qualquer parte dela. Podemos fazê-lo através de gravadores nas ruas ou nos carros, rádios e televisões manipuladas... se possível no seu próprio apartamento, senão num bar ou restaurante que ele frequente. Se não fala já sozinho, em breve o fará. Coloquemos o seu apartamento sob escuta. E agora é mesmo altura de ele ouvir a própria voz nas emissões de rádio e de TV e nas conversas dos estranhos que passam. Fácil como tudo, não é verdade? Não esqueçamos que a mensagem misturada é parcialmente ininteligível e que em qualquer caso ele lhe capta o tom. Vozes hostis de brancos reconstituídas por um negro trazer-lhe-ão à mente, também por associação, todas as ocasiões em que foi ameaçado ou humilhado por brancos. Indo um pouco mais longe, podemos utilizar gravações de vozes que ele conhece. Podemos voltá-lo contra os seus amigos por meio de mensagens hostis misturadas através da voz de um amigo. Isso trazer-lhe-á à mente todos os desentendimentos com esse amigo. Podemos condicioná-lo a amar os seus inimigos utilizando mensagens amigáveis misturadas pronunciadas por vozes inimigas.


William Burroughs, A revolução electrónica, 1971
Tradução de Maria Leonor Teles e José Augusto Mourão, Vega, 1994















































Catarina Leitão
"Thicket"

A exposição "Thicket" inaugurou a galeria Number 35, Nova Iorque, em Outubro de 2007. A natureza entra em parafuso, revolta-se e alastra pelos objectos fabricados pelos humanos e corrói a civilização. A natureza entra na cidade. Os homens urbanos afligem-se. Têm de se defender da cidade e da natureza. Correm e voam, infatigáveis, invadidos de seiva — verde ou negra — vestindo robustas e bem apetrechadas roupas de guerrilha. Os tentáculos tubulares estão cheios de vida e têm visão estroboscópica. Nada lhes escapa. Estão em alta rotação. A fusão é extrema. Pássaro-folha-homem-seiva-lixo.

Number 35 39 Essex Street New York


Últimas exposições individuais — "Flatland", Galeria Pedro Cera, Lisboa, Portugal, 2009. (January 10 – February 21) "Thicket", Number 35 gallery, New York, 2007. "The Characters the Objects and the Landscapes", Galeria Pedro Cera, Lisboa, Portugal, 2006. "Natural Selection", Project Room at Michael Steinberg Fine Art, New York, 2005. "Drawings", Galeria Pedro Cera, Lisboa, Portugal, 2004. Catarina Leitão / Matthew Ronay, "2 person show", Andrea Rosen Gallery 2, New York, 2002-2003.

Prémios e residências — 2007, The Center for Book Arts Residency, New York. 2006, Triangle Residency Program, Brooklyn, New York. 2005, The Marie Walsh Sharpe Art Foundation, The Space Program, New York. 2003, Lower Manhattan Cultural Council, Residency at the Woolworth Building, New York. 2002, The Pollock-Krasner Foundation Grant. 1997-99, Fundação Calouste Gulbenkian and Fundação Luso-Americana Fellowship. 1996, AIM Artists in The Market Place, Bronx Museum of the Arts.






















Era raro vê-la. Era difícil tirá-la de casa. A sua imagem exposta nos meios de comunicação de massas era um logro. Mas era profissional. Nada transparecia. Uma cara impecável. Apesar de se notar alguma tensão nos músculos do pescoço, particularmente quando falava. Era o esforço de articulação das palavras. Mas aguentava-se, era uma questão de sobrevivência, não existia para lá do visível.

Quando se levantava não comia. Normalmente pegava na garrafa de gin e bebia enquanto assistia aos programas da manhã na televisão. Passado pouco tempo já se ria. Ria com prazer e sentia-se elegante, em cima do sofá, de joelhos, com as pernas de lado. Depois adormeceria de novo. Mas esta tarde não podia dormir: tinha filmagens. Abandonou a garrafa.

Era uma trabalheira: horas fechada num estúdio que teriam como resultado dez segundos de exposição. A altura em que ela sorria e dizia qualquer coisa que rapidamente esqueceria. Marta vivia para estes segundos, destes segundos. Estes segundos tinham-lhe moldado a vida. A princípio era mais tempo e pagavam-lhe menos. Mas agora ela era a cara, e isso tinha muito valor. Depois de recusas, seguidas de atribuladas negociações e uma breve depressão, conseguira o contrato actual, régio, e que lhe exigia a máxima exclusividade. Não podia fazer mais nada, mesmo as aparições públicas eram doseadas. De resto era-lhe pedido o rosto, o sorriso esgaçado e o nome. Já não precisava de actuar, só aparecia.

Nessa noite foi levada pela equipa de filmagens, para um restaurante. Não tinha fome. Pediu uma túlipa. Ria e falava, com o sorriso pendurado, derretido. Soltava frases inteligentes ou enigmáticas. As túlipas seguiam em linha recta. A cerveja exibia um dourado triunfal.

Mais tarde, na discoteca, Marta estava animadíssima. Já não precisava de beber mais. Poisou na pista de dança, entre claros e escuros que as luzes compunham, e sentiu a música. O ritmo cortado. O baixo a ressoar no coração, atravessando-lhe o corpo, espalhando-se pela sala, vibrando. O corpo perto de uma explosão, veias, músculos estalavam e até o vestido prateado que tocava nos joelhos era percorrido pelos graves violentos que saíam pelas colunas. E dançou. Dançou sem se lembrar que a seguir ainda tinha de ir para casa.

No dia seguinte levantou-se à hora do costume. Arrastou-se para o sofá e acendeu a televisão. Antes do meio-dia já tinha despejado a garrafa de gin e estava caída de costas. Ocasionalmente largava umas gargalhadas.


Django













Acho este Papa interessante. É um intelectual, tem um discurso que não é ligeiro nem facilitista, que lhe tem trazido problemas porque o público que recebe a sua teorização não está preparado para descodificar a sua complexidade — estou a referir-me à comunicação social e associados comentadores, a habituais-activos-do-contra, apressados a responder, porque o grosso da massa católica não tem sentido crítico. É um Papa realista que afirma que a Igreja Católica nunca mais recuperará o lugar que já ocupou e que a sua trajectória é descendente. É o custo da pureza doutrinária e da recusa do estrelato. O Papa não quer ser star e recusa-se a integrar o star system. É chique e usa um sotaque requintado porque tudo isto faz parte da tradição. E o Papa gosta muito da tradição.

Tentando manter a tradição intocada inventou agora a tese da ecologia humana, muito rebuscada, utilizando termos exóticos como gender — mas não querendo referir-se a questões transgender — o Papa não sabe o que isso é. O Papa anseia proteger as criações de Deus. Também se preocupa com a Natureza e as chuvas ácidas — porque teme que lhe estraguem os sapatos. Mas não se pode confundir Natureza com Deus. A Natureza não é uma entidade, é simplesmente uma criação de Deus. Tal como o Homem. E o Homem não pode ter ideias esquisitas, emancipadoras e dedicar-se a actividades para as quais não foi programado. É esta a luta de Bento XVI: a integridade da criação de Deus, que tem tendência para o desvio, para se deixar influenciar pelo próximo ou por uma qualquer inaceitável natureza própria, para fazer coisas esquisitas com o seu corpo — como introduzir pénis em sítios que não lembra a ninguém, ou piercings, ou alterar o código genético de algumas células. Este Papa é um cromo.

Por outro lado detesto este Papa. Detesto qualquer Papa e a Igreja Católica. Padecem de alguma doença — porque vêm inocular esta doença na humanidade? Esta organização do ramo propagandístico tem agentes infiltrados em todas as áreas do globo com o intuito de alterar consciências e estados de espírito. O seu negócio é a contaminação de mentes com ideias perigosas à vida, tentando que os seres humanos se comportem como se comportavam há dois mil anos ou segundo as regras inventadas pela própria organização há mil anos, na Idade das Trevas. A mensagem, transmitida por meios pirotécnicos e complicadas encenações, é insalubre, contrária à alegria e pudica. E discriminatória.

O Papa não veste Prada. O que é uma pena. Veste outras chiquezas. O Papa mais artificial de todos os Papas — espécie de boneca virtual de chapéu vermelho Vivienne Westwood, vestido branco que lhe tapa todo o corpo — nem o pescoço deixa visível — apertado por pequenos botões, pesponto minimalista, acompanhado de microcapa, terminando nos célebres sapatos vermelhos — este Papa, que dirige um bando de eunucos que não se casam nem têm sexo e são igualmente deslumbrados por vestidos e rendas, atira-nos à cara com uma nova face da eugenia — a pureza da raça, a pureza do sexo, tal como descrito nas sagradas escrituras, ou não. Eugenia bíblica. É racista e segregacionista — porque somos todos sagrados. Por princípio. E o Cristo é nosso amigo. Tem o Papa toda a conveniência em indispor e insultar a massa humana, achando-a artificial, pecaminosa e autodestrutiva. E tenho eu toda a necessidade de o maltratar. Eu — fingido, postiço, falso.







Quem disse? Quem sabe? Extraordinário! Chocante!
A insegurança e o medo habitam a Europa. Prevalece o ambiente pessimista, algo melancólico até. O projecto europeu tem vindo a estiolar — e a perder força — porque os cidadãos europeus estão cada vez mais distantes dos seus dirigentes. Dirigentes ousados, corajosos e lúcidos, precisam-se. A desunião europeia não é nova. Mas diz tanto sobre a ‘democracia’ como acerca dos povos que a exercem. Os europeus não podem ser tratados como o velho Mao Tse-Tung tratava os chineses: como carne para canhão. Por toda esta Europa está a sentir-se um frémito de explosão social de camadas populares que já não suportam mais as insuficiências de políticas sociais ou os infortúnios de uma asfixiante crise económica. A globalização e a doutrina que a sustenta, o neoliberalismo, tem aumentado os problemas da miséria, da fome, do desemprego nas nações onde tem sido aplicada. Vão surgir novas formas de protesto social desconhecidas no século XX. A vulnerabilidade do Estado será visível em muitas delas. Fazer parar o país e colocá-lo à beira da fome, afinal, é fácil e, manifestamente, o Governo não sabe muito bem como impedi-lo. A política da globalização, tão apregoada como o supremo benefício da humanidade, abriu fossos abismais entre os mais ricos e os mais pobres: estes, tocam as raias da miséria; aqueles, uma existência sumptuariamente escandalosa. Criou-se um clima de maledicência geral que afunda o estado real do país e o clima social da sua população. Quanto mais se fizer passar a ideia de que o país está no charco, melhor. Esta democracia não está a ser a democracia da liberdade de opinião na procura do melhor ‘bem colectivo’ possível. Está a ser a democracia dos interesses. Portugal e os portugueses nunca foram tão pobres em democracia como na actualidade. Oh, se ao menos eu pudesse ter uma vida de sensações em vez de uma vida de pensamentos.


[Fonte indirecta: jornal Público em Junho e Julho de 2008]


































































André Guedes, André Sousa, Gustavo Sumpta,
Renato Ferrão, Tânia Bandeira Duarte
"A situação está tensa mas sob controlo"
Curadoria: Bruno Marques e Marta Mestre
Arte Contempo
Rua dos Navegantes, 46 A, Lisboa
Quinta a Sábado, 14:30 - 19:30
3 a 31 de Maio de 2008


"André Guedes, apresenta quatro publicações que catalogam as obras dos restantes artistas e propõe uma reflexão sobre a tradução de uma efeméride para um suporte acrónico, de forma a questionar o efeito de alteridade e de desmultiplicação da mesma, através do diferimento de critérios editoriais. André Sousa questiona o sentido impositivo da arquitectura para promover uma relação tensional com o visitante, no espaço da galeria. Auspicia em simultâneo a sensação de coabitação negocial com os restantes trabalhos da exposição. Gustavo Sumpta trabalha a distribuição física do peso, a instabilidade de corpos no espaço, ao mesmo tempo que acusa o estatuto performático dos intervenientes, ou seja, a possibilidade de pura e simplesmente qualquer coisa acontecer despoletada por uma acção que não parte do espectador. Renato Ferrão instala um conjunto de kits de mobiliário graviticamente em desacordo, montados ao alto numa teia de (des)equilíbrios. Este gesto serve-lhe ainda para contrariar os conteúdos de mensagens que vendem um sentido prático dos objectos do quotidiano. Tânia Bandeira Duarte, com uma composição de objectos do quotidiano pautada por uma forte componente temporal e modular, explora o contínuo ilusório através de premissas conceptuais como a alteração, a mudança, a recombinação, a justaposição."


André Guedes: 1, 2, 6, 7, 8
André Sousa: 3, 4, 10, 11, 12
Gustavo Sumpta: 4, 5
Renato Ferrão: 13, 14, 15
Tânia Bandeira Duarte: 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12







Palavras ternas pousam sobre a minha boca mas nunca sobre o meu coração. Mas isto era só uma canção, que abafava a estúrdia que se desenrolava na parte da frente da casa. A porta vinha abaixo com os murros de uma tiazona muito enervada. Esta tiazona tem já uma certa idade mas a aparência é muito jovem, como é costume. Magra, de voz cava, loura, nariz pequeno, com uns óculos enormes no alto da cabeça. A porta vem mesmo abaixo. Ou é Titânio que a abre sem saber o que faz, com o cérebro líquido.

A tia entra, vaporosa e despachada atravessa os aposentos. A tentar perceber o que é aquilo, aquela macacada. A voz cava: — Onde é que se meteram? Que gente parva! — A luz é parca, o ar irrespirável. Titânio tropeça, nu, com o corpo moreno suado, limpa a baba que escorre da boca. Não sabe o que faz nem com quem está. Não sabe nunca com quem está porque dorme com demasiadas mulheres, mas ele e Kaytlin são velhos amigos. Ela foge para outra divisão às cabeçadas e a tia persegue-a. — Quem é a menina? O que faz? O quê? A menina não sabe nada, a menina é uma burra! Ponha-se a andar! — Kaytlin procura umas cuequinhas pretas, lembra-se agora que tinha umas cuequinhas pretas e não ouve nada. Titânio já está caído, sem sentidos.

No carro ficaram as outras duas crianças. Adolescentes. Estão nus, são brancos e a pele brilha como cera. Está calor e ficaram fechados. Um deles faz abdominais. O outro tem maminhas e anquinha flácida e masturba-se.

Titânio escapou-se para o terraço traseiro, fugindo da mãe — a tia. Atira-se para a relva seca de barriga para baixo. A um canto uma araucária cresce ao lado de uma prancha de bodyboard que não é sua. A boca sabe-lhe a caldo verde. Sobe-lhe ao cérebro a imagem de Rita Fontes Pereira Vitti. A Rita tinha as tetinhas apartadas, elevando-se cada uma para seu lado.


Nuno Marques Mendes








A etimologia da palavra utopia, em grego, significa o não-lugar, e é o termo pelo qual podemos conceber o plano desejável de uma sociedade extremamente harmônica, estável e funcional, comprometida com o bem-estar da coletividade. Plano e desejo que se fundem com o sonho e a fantasia, por isso as sociedades utópicas sempre estão circunscritas em ilhas imaginárias. A ilha sendo tomada tanto como metáfora do isolamento, para um local geograficamente afastado, cercado, protegido, quanto como um fragmento do imaginário coletivo, do mito do paraíso e do eterno da felicidade. A literatura utópica descreve um equilíbrio geral das coisas sem qualquer explicação histórica ou demonstrativa de como a progressão dos valores sociais criou uma sociedade perfeita. No entanto essa impropriedade cronológica de desenvolvimento parece ser justificada pela própria escolha da localização geográfica: na representação mítica de várias culturas, a ilha é um mundo em miniatura, completo e perfeito porque possui um valor concentrado, além de ser tomada, também, como a representação do paraíso terreno. A sociedade utópica, portanto, por estar fundamentada no ideal, não escapa de permanecer situada num para-lugar e na descontinuidade histórica, como o é a cidade de Platão ou as ilhas de Thomas More e de Francis Bacon.

O que parece ficar explícito nas utopias é uma aura de profilaxia, como se fosse possível expurgar destes mundos imaginados todo o tipo de prática social que fosse nociva, proibida ou indesejável à sociedade. O projeto inalcançável da utopia está nessa fragilidade um tanto paradoxal, de homogeneização de princípios e valores, de fazer ausência definitiva do que antes era presença, de conceber um Jardim do Éden sem serpente. Com qualidades pouco objetivas e quebráveis, o projeto estaria ameaçado pela subjetividade do sujeito, que não se (con)funde com a comunidade porque é singular, e pelo convívio social, no qual a própria natureza política do homem é responsável pelo aflorar de vícios e excessos. Afinal era assim que Jean-Jacques Rousseau compreendia a sociedade: como um jogo de poderes corruptos. Para ele o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe, o que quer dizer que, na dinâmica dos interesses individuais, a comunidade fica comprometida. E este não é um conceito anacrônico, reduzido apenas ao contexto iluminista, porque mesmo antes ou depois de Rousseau teorizar a esse respeito, as estruturas sociais revelaram modos de dominação, subversão e opressão político-social. Por isso o sonho de equilíbrio das utopias só poderia funcionar de um modo localizado, restrito e mínimo. Não há lugar para um projeto utópico fora da ilha, porque seria insustentável se aplicado a sociedades continentais e globalizadas, profundamente dependentes umas das outras, e em constante crise política. No entanto, o mais assustador é que o inverso desse caráter localista, irrealizável e abstrato da utopia, parece ser mais provável de ser atingido: as distopias operam dentro do presumível e assumem contornos mais concretos, executáveis em longo prazo, com impacto de amplitude mundial.

O sentido distópico para sociedade, ao invés de operar com a exclusão de componentes negativos para o funcionamento de uma sociedade, isola algumas dessas categorias e exagera sua negatividade. O plano da distopia parece ser realizável se esses mesmos componentes foram tomados pelo excesso, num tipo de previsão sombria do futuro. Enquanto a utopia concebe uma sociedade extemporânea, sem existência física no tempo e no espaço, a distopia fica ancorada na contemporaneidade, em espaços geográficos reconhecíveis e num tempo prospectivo. Se a utopia descreve como tudo deveria vir a ser, o sentido da distopia, por natureza, reside num pessimismo histórico, por conta das conjecturas de como o rumo desordenado da realidade pode comprometer a vida mundial.

É nesse viés que podemos ler o romance Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, como o engendrar do imaginário numa sombria prospectiva histórica. Publicado em 1932, no período entre-guerras, o romance faz uma suposição do que em longo prazo poderia acontecer com a sociedade através do crescimento desumanizado do progresso científico e material. De certa forma o sentimento de aniquilação, a deliberada exploração científica e tecnológica, a depressão econômica dos anos 30 contribuíram para a criação dessa sociedade fictícia no qual as convenções sociais são reordenadas por um estado aparentemente utópico. Sensação contraída apenas por quem faz parte do sistema, pois qualquer olhar estrangeiro poderia perceber o quanto de ilusão e alienação está por trás do que parece ser uma sociedade perfeita. Perfeito disfarce para um regime totalitário que eliminou para sempre o passado, a subjetividade e a liberdade dos indivíduos.

O apagamento da subjetividade é o princípio norteador de todo Estado Mundial criado por Huxley, no qual comunidade, estabilidade e identidade determinam o funcionamento de um sistema rígido de estruturação social. Mas ao contrário do caráter extemporâneo das utopias, a distopia deste romance é localizada num tempo determinado, o ano de 635 depois de Ford, o que no nosso calendário oficial corresponderia ao ano de 2545. Para demonstrar como o impacto da ciência alterou o mundo e seus valores, até o tempo é reorganizado, o nascimento de Jesus Cristo como marco inicial do calendário cristão é substituído pelo ano de implantação da linha de montagem na indústria, por Henry Ford. Nesse futuro não apenas Deus não existe mais, o que se louva é a ciência e sua capacidade de trazer benfeitorias à civilização. Ford ocupa, ao mesmo tempo, o lugar sagrado de Deus e Jesus nesse soturno futuro previsto por Huxley, no qual o impacto profundo da ciência sobre o indivíduo inverte uma série de valores e o torna elemento facilmente substituível de uma sociedade tecnocrata.

Nesse sentido podemos perceber a importância de Henry Ford para o sistema, porque a combinação da linha de montagens e da engenharia genética permitiu a extinção completa da família, do indivíduo, dos valores afetivos e pessoais. Em 2545 as pessoas são inteiramente geradas em laboratórios, predeterminadas geneticamente, produzidas em série, padronizadas, uniformizadas e predestinadas socialmente antes mesmo de nascerem. Esse princípio de produção em série aplicado à biologia não somente produz um grande número de seres de modo completamente artificial, como o faz por um a técnica de clonagem que gera quase uma centena de pessoas idênticas. Nesse sentido o homem está para a reprodução artificial tanto quanto a obra de arte está para reprodutibilidade técnica: perde-se a aura e o caráter único do indivíduo, propriedades que seriam parte de uma qualidade humana inalienável e indestrutível.

Por isso o sentido de identidade perde seu significado enquanto caracter próprio de um indivíduo que o distingue de outro para adquirir um permanente sentido de indiferenciação, de igualdade e conformidade assumidas como naturais. O que permite que conceitos como comunidade e identidade acabem sustentando a estabilidade social. Não somente as classes sociais a que o indivíduo deve pertencer são predestinadas nos centros de incubação, mas a conformidade às funções e aos valores sociais é condicionada por técnicas hipnopédicas. Na fase de crescimento, durante o sono, as pessoas ouvem frases axiomáticas que substituirão o superego e a própria consciência do indivíduo. Num mundo de pessoas massificadas intelectualmente, a estabilidade torna-se uma constante porque garante a manutenção de um governo que lida com pessoas sem opinião própria.

O sentido de comunidade acaba contaminando de forma viral todos os outros valores. Família, amor e monogamia, por exemplo, tornam-se obscenidades, a liberdade sexual é incentivada, cada um é de todos. E para não afetar esse equilíbrio artificial da comunidade, mesmo com a predestinação genética e a hipnopedia, o Estado controla possíveis oscilações de humor por meio de uma poderosa droga psicoativa: o soma. Equivalente ao ecstasy ou prozac de hoje, o soma era uma droga lícita fornecida como ração diária. Por meio desse aparato conformador, manifestado em duas instâncias — genética e psicológica —, a comunidade parecia viver uma utopia na qual todos eram felizes. No entanto essa felicidade apenas pode ser garantida por meio da redução do indivíduo a um objeto humano profundamente alienado.

De certa forma a alienação e a supressão de liberdades individuais parece ser uma constante tanto nas utopias quanto nas distopias. O conhecimento é um direito reservado apenas aos detentores do poder o que significa dizer que pertence a poucos. Em livros como A República, de Platão, 1984, de George Orwell, e em Admirável Mundo Novo, a literatura fora banida ou despersonalizada por ser considerada um perigoso veículo de expressão, de pensamento e de conhecimento. Mas se n’A República permanecem os filósofos, que dão conta do poder e das generalidades do conhecimento, em Admirável Mundo Novo esse tipo de saber é localizado. Os cidadãos não têm capacidade para responder nada do que esteja fora de sua especialidade. A combinação de conhecimentos pode ser nociva ao equilíbrio e ao progresso. Do mesmo modo, o passado também o é, só existindo um tempo presente, instantâneo, e o futuro, no máximo, pertence a uma conjugação do presente ou do pretérito: a história e a memória são extintas do novo mundo. Não existem museus, monumentos históricos ou livros, o passado está destruído e condenado.

Tanto as cidades utópicas de Callipolis, Amaurota ou Bensalém, quanto as duas distopias mundiais narradas na perspectiva londrina concordam que para o equilíbrio de um sistema é necessária a profilaxia dos elementos que o afetam. Nas cidades utópicas, o homem parece retornar a um estado de integração com a natureza, recuperando o sentido do bom selvagem e de nação virgem e estável. No entanto, não significa que esse retorno à natureza seja de todo positivo, porque tolhe liberdades, cria uma moral pouco flexível e gera o conformismo para uma sociedade em estagnação. Por outro lado, nas distopias a estabilidade social parece ser apenas garantida pela estabilidade individual. Por isso a necessidade do apagamento da memória e dos valores emocionais ligados à recordação, da supressão dos pais para a cura das neuroses identificadas pela psicanálise, da felicidade monitorada pelas drogas psicoativas ou da educação moral hipnopédica que torna a inteligência irracional e instintiva. O homem da distopia rejeita a natureza e volta-se para a tecnologia, a modernidade, o consumo e o progresso. Não existe tensão entre o real e o ideal porque a individualidade foi dissolvida no corpo social e proscrita de sua qualidade humana. Por trás da aparente felicidade do sistema, existe o futuro lúgubre da artificialidade do homem, da imortalidade patológica dos clones, da assepsia geral das coisas, do minimalismo do pensamento.

O irônico em distopias como Admirável Mundo Novo ou 1984 e, é desenvolver uma história a partir do ponto de vista de alguém que desliza para margem e moderadamente questiona as impropriedades do sistema. Bernard Marx, o protagonista da primeira, é torturado com o isolamento de tudo aquilo que seu condicionamento moral o fazia amar enquanto Winston Smith, o protagonista da segunda, acaba sendo exemplo de como o aparato estatal de controle conforma e reforma o indivíduo. Duas histórias que mostram o quanto a consciência crítica, o desejo e os valores afetivos podem provocar distúrbios numa ordem estabelecida. Talvez ainda mais se pensarmos que foi por amor que nossos protagonistas estranharam a ordem do mundo, e em meio ao caos do coração, intuíram que algo estava perdido para sempre. Mesmo que o passado já não exista mais, o tempo seja uma subtração, o espaço seja tão transitório e a vida tão sem sentido. A literatura das distopias parece apenas dizer que o amor a si e ao outro é o mais importante da vida E perdê-lo na tecnocracia e na virtualidade do mundo é esperar por essa solidão tão fria, essa sensação tão gasta de estar em todos os lugares e não estar em ninguém, mesmo sem poder perceber o quão admirável era o velho mundo e o antigo coração.



Marcio Markendorf, 27 anos, é escritor, ensaísta e professor de literatura. Doutorando em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil, e autor do blog www.incorrespondencias.blogspot.com


















































"Do It Yourself (experiência nocturna)"
"10 Tentativas Para Encontrar o Snark #2"
"Em diferentes escalas" (colectiva)
Espaço Avenida
Avenida da Liberdade, 211, 1º D, Lisboa
Quinta e Sexta, 17:00 - 20:00
Sábado e Domingo, 15:00 - 20:00
10 a 27 de Abril de 2008


Do It Yourself (experiência nocturna)
"Utiliza posters distribuídos gratuitamente pelo jornal The Guardian, nos quais se sobrepõe um desenho subtil. O desenho referencia uma experiência particular e subjectiva, a qual procura perturbar a informação estandardizada que é inicialmente providenciada pelos posters (planisfério das constelações do hemisfério Norte)."

10 Tentativas Para Encontrar o Snark #2
"Neste projecto são utilizados chapéus-de-chuva perdidos, de cor preta, que foram recolhidos pelo sistema de transportes Londrino (TfL). Em cada um dos 10 chapéus-de-chuva são perfurados vários orifícios de acordo com o padrão das constelações dos hemisférios Norte e Sul. Cada chapéu-de-chuva, destituído da sua anterior função, convida agora o espectador a participar numa singular experiência algures entre a Mary Poppins e uma visita ao planetário mais próximo."





























































Espaço Avenida
Avenida da Liberdade, 211, 1º D, Lisboa
Quinta e Sexta, 17:00 - 20:00
Sábado e Domingo, 15:00 - 20:00
10 a 27 de Abril de 2008


"Este trabalho consiste numa série de seis pinturas baseadas em fragmentos de paredes de prédios suburbanos. Os fragmentos foram fotografados e reproduzidos em tela, baseando-se nas cores e na própria textura das paredes. Estas pinturas foram então utilizadas na execução de seis vídeos que mostram o artista a transportar cada tela pelas ruas da cidade, em busca do local de onde foi retirado o fragmento que serviu de base à sua execução. Uma vez encontrada a sua localização precisa, a tela é colocada no sítio. Com este conjunto de trabalhos pretende-se abordar a relação codificada entre a representação e o real. Onde acaba a pintura e começa e realidade?"







"Todos os pares se imobilizaram, excepto o do fundo. Toda a gente estava de olhos postos nos dois que agora baloiçavam mais rapidamente, seguindo o seu próprio ritmo sinuoso.

— Meu Deus — exclamou Jasmin —, eles estão a foder! — E gritou para os assistentes do contra-regra: — Se querem voltar a trabalhar em Londres, é melhor irem separá-los e pararem com esses sorrisos idiotas. — Depois, dirigindo-se aos pares, ordenou: — Desapareçam e voltem daqui a meia hora. Não, não, fiquem nos vossos lugares. — Virando-se para Dale, disse com voz rouca: — Lamento que isto se tenha passado, querida. Imagino como te deves sentir. É uma coisa nojenta e indecente e a culpa foi minha. Devia tê-los passado em revista antes de começarem. Mas não vai tornar a acontecer.


Enquanto falava, Dale foi dando golpes pela coxia acima até desaparecer. Entretanto, o par continuava a baloiçar, agora sem música. Só se ouvia o ranger do tablado sob a carpete e os gemidos suaves da mulher. Os assistentes do contra-regra permaneciam estáticos, sem saber o que fazer.


— Separem-nos! — gritou Jasmin de novo.


Um deles puxou o homem pelos ombros, que, de tão suados, lhe escorregaram das mãos. Jasmin virou-se de costas, com lágrimas nos olhos. Era inacreditável! Os outros, satisfeitos com o intervalo, tinham-se posto de pé, a olhar. O assistente do contra-regra que tentara puxar o homem apareceu com um balde de água. Jasmin assoou-se.


— Não sejas ridículo! — coaxou. — Já devem estar a acabar.


Ainda não terminara a frase quando o par foi sacudido pelos últimos espasmos. Separaram-se e a rapariga correu para o camarim, deixando o homem sozinho. Jasmin subiu para o palco e interpelou-o em voz trémula e sarcástica:


— Muito bem, Portnoy, já fizeste o gosto ao dedo? Sentes-te melhor agora?


O homem estava de pé, com as mãos atrás das costas. A picha, irritada e pegajosa, descia-lhe em pequenas palpitações.


— Sinto, sim, Mr. Cleaver, muito obrigado.


— Como te chamas, meu lindo?


— Cocker.


Na plateia ouviu-se uma espécie de resfolgar. Era Jack, naquilo que nele constituía a expressão mais próxima do riso. Os outros apertavam os lábios. Jasmin inspirou profundamente.


— Bem, Cocker, tu mais o boneco guedelhudo que tens aí pendurado podem rastejar para fora deste palco. Espero que encontrem uma valeta à vossa medida.


— Muito obrigado, Mr. Cleaver. Tenho a certeza de que havemos de encontrar.


Jasmin dirigiu-se para o auditório.


— Os outros, preparem-se para recomeçar.


Sentou-se. Havia dias em que só lhe apetecia chorar, chorar a valer. Mas, em vez disso, acendeu um cigarro."



Ian McEwan
, "Cocker", Primeiro amor, últimos ritos, 1975
Tradução de Ana Falcão Bastos, Gradiva, 1988







































"Maravilhas de Portugal"
"Em diferentes escalas" (colectiva)
Espaço Avenida
Avenida da Liberdade, 211, 1º D, Lisboa
Quinta e Sexta, 17:00 - 20:00
Sábado e Domingo, 15:00 - 20:00
10 a 27 de Abril de 2008


"Quando se quer dar a conhecer uma cidade, o procedimento usual é compilar os monumentos e espaços públicos mais famosos e mais representativos do local."










































Espaço Avenida
Avenida da Liberdade, 211, 1º D, Lisboa
Quinta e Sexta, 17:00 - 20:00
Sábado e Domingo, 15:00 - 20:00
10 a 27 de Abril de 2008


"Momentos vividos em lugares esquecidos no Mundo, dotados de uma sublimidade alcançada por efeitos atmosféricos, forças naturais na sua pujança.

Convulsões de formas que tendem a dissipar-se umas nas outras e que se revelam numa ambiguidade subtil. Assim o espectador é encorajado a contemplar em particular, fragmentações de espaços que a posteriori dão origem a um novo Todo, partindo-se assim para uma construção compositiva em forma de grelha. "










Não é muito sedutora a imagem de um Polícia a apontar uma arma para mim, para o veículo, para verificar informações injectadas no Chip. É o cenário de um quotidiano agressivo e policiesco. O meu carro filado. Sensação semelhante à de ter incrustada uma pulseira electrónica. Num tornozelo. Como um pombo. Ou um cadastrado infame. Ser considerado um cadastrado em potência. A pulseira a apertar se eu não reagir a uma ordem categórica. A pulseira viva, apertando a carne, cortando a circulação, produzindo dores excruciantes. Uma perna inutilizada, inchada, vertendo sangue.

O sangue também monitorizado e alterado, biotransformado, envenenando-me, emitindo sinais de alerta, origem de relatórios e conjecturas, delícias da Bio-Polícia. E eu caído, com a perna roxa, arrastando-me. Mal. Sou um empecilho tombado à beira da estrada, pronto para ser recolhido por um dispositivo mecânico securitário que patrulha as ruas da Cidade.

Ou ser atingido por um raio imobilizador disparado por um elemento das Forças de Segurança do Omni-Estado. Após detectadas hipotéticas irregularidades o raio fere a viatura motorizada, deixando-a inerte. O condutor, eu, saio, recuando atemorizado, sou também atingido pelo fluxo brilhante e incandescente que jorra da arma. Caio fulminado, como numa banda desenhada da Marvel. A BD é a realidade.
















[Émon. Exercícios de estilo. 4] Émon está sentado no chão, encostado a uma parede, uma mancha verde, um montículo de ossos dobrados. À sua frente, o homem-activo agita-se, percorre o pavilhão, transporta vigas de madeira. Por isto, por ter este hábito, ou outros com igual exigência de força física, tem a musculatura desenvolvida e executa as suas actividades com leveza e elegância. T-shirt, calças justas, botas bicudas, tudo preto. Os braços nus, lívidos. Segura uma viga com a mão direita, uma viga comprida. Manipula-a com a força de um só braço, coloca-a paralela a outras, enquanto anda: pernas de perfil, passada larga, tronco a três quartos, olhando para a frente. Constrói estruturas paralelas e ortogonais ocupando todo o solo do pavilhão. Ouvem-se, ritmadamente, sons, do contacto dos materiais e do eco. Depois este homem-activo desconstrói as estruturas e cria outras novas. É este o seu trabalho de atelier.

No chão, Émon extrai duma perna uma pequena bolsa rectangular forrada com um tecido impermeável de cor violácea. Abre: é um microcomputador. À direita, na vertical, está encaixado um cigarro de haxixe. Acende-o. O fumo sobe numa linha recta. Émon liga o computador ao cérebro utilizando um cabo que introduz num orifício situado sobre a orelha direita. Filma o homem-activo utilizando os olhos como objectivas. O homem-activo percorre as suas estruturas incansavelmente e dá voltas ao atelier durante sessenta minutos: a duração do filme registado pela cabeça-computador de Émon, alterado pelos fumos do haxixe.

O homem-activo senta-se ao lado de Émon. Temos agora uma mancha negra junto de uma mancha verde, que se destacam de um fundo branco, tendo em frente estruturas geométricas elaboradas com vigas de madeira que se prolongam no espaço. O homem-activo encosta a cabeça à do seu vizinho e recebe vibrações, mensagens contraditórias, fluxo intelectual que lhe chega em rede, do computador, da cabeça de Émon. Imagens, flashes luminosos, teoria, vozes, matemática. Após um breve período consegue distinguir a linguagem molecular exclusiva de Émon, que passa para o seu corpo, entrando na corrente sanguínea. Contém essências de Émon, muito agradáveis e pacificantes. E contém também elementos seus, produzidos enquanto deambulava pelo espaço interior.

Essências e elementos alimentam-se de um e do outro, fundem-se e desenvolvem-se em originais e belas combinações. O fluxo mantém-se, passando de uma cabeça para a outra, indo ao computador e voltando. Gera-se uma nova forma de vida com início no homem-activo. Os seus braços lívidos ganham qualidades incandescentes, enquanto à volta dos dois se forma uma aura vermelha. Que solidifica, partindo-se depois como um molde de cera. Eles ficam intactos.

Django






























































André Guedes
"Better Days, For These Days"
Rua Tenente Ferreira Durão, 18-B, Lisboa
Terça a Sábado, 10:00 - 20:00
24 de Abril a 31 de Maio de 2008


Sequência Final
, 2007, difusão sonora dos dez últimos minutos do filme L’Eclisse (1962) de Michelangelo Antonioni [música de Giovanni Fusco, som de Claudio Maielli] durante os dez últimos minutos de abertura de um espaço / Better Days (Eckland), 2008, revista Il Dramma, nº3, 1969 / Better Days (Vitti e Sordi), 2008, revista Il Dramma, nº10, 1969 / Better Days (Degermark), 2008, revista Il Dramma, nº1, 1969 / Better Days (Delon), 2008, revista Il Dramma, nº7, 1969 / S/Título (Vestíbulo I), 2007, planta artificial e cinzeiro provenientes de um cinema / S/Título (Corrimão), 2007, painel em aglomerado de madeira revestido a tecido proveniente de um cinema / Calendário I, 2007-2008, três cadeiras e um sofá utilizados sucessivamente entre os anos 1960 e 2007 no vestíbulo de um cinema / S/Título (Dois patamares), 2007, réplica de dois espelhos de um salão de cabeleireiro, posteriormente instalados na escadaria de um cinema / S/Título (Vestíbulo II), 2007, caixa em madeira revestida a melamina proveniente de um cinema / S/Título (Arrecadação), 2007, cadeira de repouso proveniente de um cinema / S/Título (Escadaria), 2007, réplica de um cortinado de um cinema; estrutura em ferro / S/Título (forma de uma obra anterior), 2008, painel em contraplacado de faia semelhante a uma obra concebida anteriormente; acção realizada por um conjunto de cinco pessoas; diaporama de slides em dois projectores (duração: 6’ 50’’) / S/Título (Vão), 2008, pedaços de relva em plástico provenientes de um cinema.






















































Pedro Cabral Santo
"Tilt"
Centro de Arte Moderna
Fundação Calouste Gulbenkian
Rua Dr. Nicolau de Bettencourt, Lisboa
Terça a Domingo, 10:00 - 18:00
13 de Março a 22 de Junho de 2008








"Esse sistema de leis, portanto, que está ligado à criação do subsídio, parece não merecer nenhum dos elogios que lhe têm sido dispensados. O progresso e a prosperidade da Grã-Bretanha, que tantas vezes têm sido atribuídos a essas leis, podem muito bem ser imputados a outras causas. A segurança que as leis da Grã-Bretanha dão a toda a gente, de desfrutar dos benefícios de seu próprio trabalho, basta por si só para fazer qualquer país florescer, não obstante estes e mais outros vinte regulamentos comerciais absurdos; e esta segurança foi aperfeiçoada pela revolução, mais ou menos na mesma época em que se criou o subsídio. O esforço natural de qualquer indivíduo para melhorar a sua própria condição, quando se permite que ele actue com liberdade e segurança, constitui um princípio tão poderoso que, por si só, e sem qualquer outra ajuda, não só é capaz de levar a sociedade à riqueza e à prosperidade, como também de superar uma centena de obstáculos impertinentes com os quais a insensatez das leis humanas com excessiva frequência obstruem o seu exercício, embora não se possa negar que o efeito desses obstáculos seja sempre interferir, em grau maior ou menor, na sua liberdade ou diminuir a sua segurança. Na Grã-Bretanha, a indústria está perfeitamente segura; e embora esteja longe de ser totalmente livre, é tão livre ou mais livre do que em qualquer outra parte da Europa."


Adam Smith, Investigação sobre a natureza e causas da riqueza das nações, 1776
Tradução de Paula Paço, Editorial Planeta De Agostini, 1997











Imaginamos o Chiado em 1900. Não havia a Brasileira. A Brasileira só seria inaugurada em 1905. Eça de Queiroz não conheceu a Brasileira. Na altura em que por ali existiu, ou forjou existências, o pólo aglutinante era a Casa Havaneza. Mas o Chiado era já o centro da elegância e da intelectualidade. Notam-se, em comparação com o tempo presente, grandes diferenças. O espaço era menos compartimentado, mais livre. O tráfego reduzia-se essencialmente ao eléctrico que seguia a Rua da Misericórdia e eventuais carroças ou caleches. O Largo do Chiado ligava-se ao Largo de Luís de Camões, era uma zona aberta. O trânsito humano era em menor número. E observavam-se, basicamente, as três classes sociais clássicas: povo, burguesia e aristocracia. O povo era invisível, a burguesia exibia fatos janotas e a aristocracia salientava-se pelo luxo e extravagância da roupa. Uma senhora, de escuro, chapéu alto de plumas, o corpo desenhado numa forma com as curvas acentuadas, mas duma forma deveras pudica, uma forma maciça onde encaixava a mulher. Esta mulher, quando passava, destacava-se notoriamente do fundo. E era, com certeza, uma figura conhecida, de família identificável. Podíamos encontrar poucas figuras como esta. Por isso a sua presença era tão flagrante e essencial à composição da personalidade do local.

Contemporaneamente, a massa humana que investe no local, encurralada nos passeios, tropeçando na monstruosa saída do Metro, é uma massa indiferenciada onde nenhuma peça é excêntrica. É um sinal dos tempos. Tempos igualitários, normalizados pela democracia. Não há contrastes, somente pessoas normais e turistas. Só uma celebridade poderia sobressair do movimento constante de passeantes. É um tempo de celebridades. Mas as celebridades são foleiras, não frequentam o Chiado com frequência e estarão, portanto, sempre deslocadas: uma espectacularidade por desadequação, concorrendo com os carros e os engolidores de fogo. Nestes tempos, o que há de mais atraente no Chiado sou eu, quando subo, de óculos escuros e uma gentil t-shirt. Moreno, alto, de ombros direitos.

Django












Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir numa síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro.

O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela — em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz.

A síndroma provinciana compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.

Se há característico que imediatamente distinga o provinciano, é a admiração pelos grandes meios. Um parisiense não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas. Recordo-me de que uma vez, nos tempos do Orpheu, disse a Mário de Sá-Carneiro: «V. é europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa V. é vítima da educação portuguesa. V. admira Paris, admira as grandes cidades. Se V. tivesse sido educado no estrangeiro, e sob o influxo de uma grande cultura europeia, como eu, não daria pelas grandes cidades. Estavam todas dentro de si.»

O amor ao progresso e ao moderno é a outra forma do mesmo característico provinciano. Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso lhes não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção. Diga-se incidentalmente: é esta uma das explicações do socialismo. Se alguma tendência têm os criadores de civilização, é a de não repararem bem na importância do que criam. O Infante D. Henrique, com ser o mais sistemático de todos os criadores de civilização, não viu contudo que prodígio estava criando — toda a civilização transoceânica moderna, embora com consequências abomináveis, como a existência dos Estados Unidos. Dante adorava Virgílio como um exemplar e uma estrela, nunca sonharia em comparar-se com ele; nada há, todavia, mais certo que o ser A Divina Comédia superior à Eneida. O provinciano, porém, pasma do que não fez, precisamente porque o não fez; e orgulha-se de sentir esse pasmo. Se assim não sentisse, não seria provinciano.

E na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redacções, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz. Assim, o maior de todos os ironistas, Swift, redigiu, durante uma das fomes na Irlanda, e como sátira brutal à Inglaterra, um breve escrito propondo uma solução para essa fome. Propõe que os Irlandeses comam os próprios filhos. Examina com grande seriedade o problema, e expõe com clareza e ciência a utilidade das crianças de menos de sete anos como bom alimento. Nenhuma palavra nessas páginas assombrosas quebra a absoluta gravidade da exposição; ninguém poderia concluir, do texto, que a proposta não fosse feita com absoluta seriedade, se não fosse a circunstância, exterior ao texto, de que uma proposta dessas não poderia ser feita a sério.

A ironia é isto. Para a sua realização exige-se um domínio absoluto da expressão, produto de uma cultura intensa; e aquilo a que os Ingleses chamam detachment — o poder de afastar-se de si mesmo, de dividir-se em dois, produto daquele «desenvolvimento da largueza de consciência» em que, segundo o historiador alemão Lamprecht, reside a essência da civilização. Para a sua realização exige-se, em outras palavras, o não se ser provinciano.

O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça de Queirós. E o exemplo mais flagrante porque foi o escritor português que mais se preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado. As suas tentativas de ironia aterram não só pelo grau de falência, senão também pela inconsciência dela. Neste capítulo, A Relíquia, Paio Pires a falar francês, é um documento doloroso. As próprias páginas sobre Pacheco, quase civilizadas, são estragadas por vários lapsos verbais, quebradores da imperturbalidade que a ironia exige, e arruinadas por inteiro na introdução do desgraçado episódio da viúva de Pacheco. Compare-se Eça de Queirós, não direi já com Swift, mas, por exemplo, com Anatole France. Ver-se-á a diferença entre um jornalista, embora brilhante, de província, e um verdadeiro, se bem que limitado, artista.

Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe, O provincianismo vive de inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos.






















































Maria Teresa Silva
"Real Barraca Without a care"
Espaço Avenida
Avenida da Liberdade, 211, 1º E, Lisboa
Quarta a Sexta, 18:00 - 22:00
Sábado e Domingo, 16:00 - 21:00
14 a 30 de Março de 2008


Situados geralmente em zonas de reestruturação urbanística e humana, a disseminação de espaços alternativos no circuito artístico e expositivo é cada vez maior. Pelas características que apresentam, estes espaços funcionam quase sempre como um desafio aos artistas que neles expõem. O espaço Avenida, no número 211 da Av. da Liberdade, enquadra-se em grande medida no que se entende por espaço de intervenção temporária; um lugar que se encontra à disposição da criatividade artística e que se presta ao site specific.

Trabalhar neste género de espaços não é algo estranho para Maria Teresa Silva. Os seus projectos partem usualmente de lugares com história, memórias, mais ou menos desconfortáveis. A impossibilidade de comunicação escrita e verbal, os domínios público e privado e a fugacidade da memória são algumas das temáticas que utiliza como fio condutor.

A artista tem exposto em espaços que não se regem pelas normas institucionais do white cube. A Casa 372, por exemplo, foi um projecto site specific concebido numa casa no Porto para o Evento 5.0. A peça de som apresentada (descrição verbal das várias divisões escolhidas) partia da relação passível de estabelecer entre o lugar e as memórias que o habitavam. No projecto para o edifício Interpress (antiga gráfica onde era impresso o Diário Popular), desenvolveu uma pesquisa sobre o ensino nas escolas primárias durante o período do Estado Novo. Intitulado A História Como Qualquer Coisa de Provisório, o projecto tinha por referente a Revolução de 1974, tema proposto pela Escola Maumaus no âmbito da LisboaPhoto 03. Como resultado, ‘desenhou’ a exposição e através de uma performance fez uso dos elementos que o espaço frio e decadente podia oferecer. Um dos últimos trabalhos, foi o projecto desenvolvido na Bartolomeu5 em 2005. Noventa e oito por quinhentos e setenta e sete funcionou como uma instalação site specific, no corredor e na entrada de um andar num prédio de habitação do séc. XVIII, em Lisboa. O papel de parede com um desenho em relevo delicado, no edifício em mau estado de conservação, foi o contraste encontrado para o desenvolvimento do projecto que tinha como intenção reflectir sobre a ideia deste lugar poder ser privado ou público, sobre as diferentes maneiras de o habitar e sentir, modificando-o de forma a que o público questionasse se o espaço estava ou não a ser habitado naquele momento.

Ao contrário dos outros projectos, Maria Teresa Silva não desenvolve para o espaço Avenida uma instalação site specific. Procurou antes adaptar um projecto com 5 anos, que estava à espera de um lugar que reunisse determinadas condições necessárias à sua realização. A escolha de um espaço expositivo que não fosse neutro (ausente de memórias e vivências) era fundamental para retirar proveito do estado em que se encontrasse e transformá-lo de forma a encenar determinado contexto ou ideia.

O projecto Real Barraca Without a care teve como ponto de partida a visita a dois palácios. Um deles foi visitado pela artista em contexto turístico na companhia de amigos, onde decidiu gravar o som da visita guiada. No outro palácio, tinha definido fotografar algumas das salas fora do âmbito de uma visita guiada, sem pessoas. Com a distância temporal de cinco anos desde ambas visitas e a data da exposição, a peça de texto traduz o domínio mais pessoal da memória das três pessoas que em conjunto visitaram o primeiro palácio. Desta experiência resultaram três peças que ocupam agora quatro salas do espaço Avenida e constituem a instalação expositiva composta por slides, áudio e texto.

Os palácios fazem parte da história e do imaginário infantil. Outrora lugares privados, são hoje lugares públicos que despertam por vezes um certo fascínio no visitante, ou são vistos como ambientes kitsch distantes da realidade contemporânea. Locais dirigidos por uma série de parâmetros que o turismo cultural impõe, no que diz respeito à hora das visitas, à restrição nas filmagens e fotografias, ou ao próprio percurso que é previamente estabelecido, estas circunstâncias despertaram na artista uma vontade de subverter as imposições e restrições colocadas. Os percursos que fez processaram-se de forma diferente. Durante a primeira visita, o som foi gravado de forma sub-reptícia, e para fotografar o outro palácio ultrapassou várias etapas até conseguir autorização.

Trata-se de um projecto que explora as noções de acesso, percepção e interpretação na ligação com o domínio público e com os condicionamentos impostos pelo turismo cultural ao funcionamento do património — condicionamentos que acabam por ser mais ou menos comuns a sítios congéneres. À incerteza do estado inicial do projecto, como um ensaio ou uma experiência com contornos operativos ainda por assumir, alia-se um intervalo temporal que permitiu definir o próprio processo criativo. A artista recria um certo ambiente, onde cada pessoa é convidada a imaginar/rememorar sobre o que ouve e o que vê.


Sandra Lourenço







"Um primeiro exemplo e totalmente provisório. Em todos os tempos se quis «reformar» os homens: a isto, acima de tudo, se chamou moral. Mas, sob a mesma palavra, está oculta a tendência mais oposta. Tanto a domação da besta-homem como a educação de um determinado género-homem recebeu o nome de «melhora»; mas estes termini zoológicos exprimem realidades — realidades, é certo, acerca das quais o «melhorador» típico, o sacerdote, nada sabe — nada quer saber... Chamar «melhoramento» à domesticação de um animal é, para os nossos ouvidos, quase uma piada. Quem conhece o que acontece nas ménageries duvida que o animal «melhore». Debilita-se, isso sim; torna-se menos pernicioso, torna-se um animal doente em virtude da emoção depressiva do medo, pela dor, pelas feridas, pela fome. — As coisas não se passam de modo diverso com o homem domado, que o sacerdote «aperfeiçoou». Na alta Idade Média, em que a Igreja era efectivamente, acima de tudo, uma ménagerie, dava-se caça de preferência aos mais belos exemplares da «besta loira» — «melhoravam-se», por exemplo, os germanos nobres. Mas, qual era, depois, o aspecto de um tal germano «melhorado», encerrado num claustro? O de uma caricatura de homem, de um aborto: tornara-se «pecador», fechava-se numa jaula, estava aferrolhado entre ideias terríveis... Ali jazia ele, doente, triste, malévolo para consigo mesmo; cheio de ódio contra os instintos da vida, cheio de suspeita contra tudo o que ainda era forte e feliz. Em suma, um «cristão»... Em termos fisiológicos: na luta contra a besta, pô-la doente pode ser o único meio de a enfraquecer. Bem o compreendeu a Igreja: estropeou o homem, debilitou-o — mas pretendeu tê-lo «melhorado»..."



Friedrich Nietzsche, "Os Reformadores da Humanidade",
in O Crepúsculo dos Ídolos, 1888
Edições 70, 2002, Tradução de Artur Morão