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Caros leitores, mudemos de programa. Sejamos adultos. E sejamos imaginativos. Avancemos de peito aberto. E sobretudo não compliquemos: novo paradigma económico? regresso da política? macro-regulação? Falta aqui um toque de caos e de vida — tenho de admitir que gosto deste ambiente apocalíptico de final de civilização que nos vem seguindo, os choques petrolíferos que deixam a economia planetária virada do avesso, os carros à beira da estrada sem gasolina e a revolta a generalizar-se. A Banca a falir levando tudo de arrastão: a macrocefalia, o dinheiro do petróleo, tudo virado do avesso de novo.

A mãe do apocalipse: a ruptura do equilíbrio geoestratégico, a emergência de novas polaridades: novos entusiasmos, novos antagonismos, os novos wannabes globais, a força do embate de civilizações. São tempos efervescentes. O futuro desenrola-se com mais propriedade e realidade. O mundo heterogeniza-se. As sociedades transformam-se, deixam-se contaminar, adaptam-se a novas situações. Quem quer o passado de volta? O passado burguês, chato e sossegado.

As sociedades podem elevar-se em formas extraordinárias. Podem admitir e admirar novos centros de poder. Novas periferias de poder. Poderes públicos, económicos, intelectuais, civis, rivalizando entre si, concorrendo com serviços similares, partilhando a ribalta. Protagonistas de igual direito. Administrações públicas alternativas, financiadas por empresas. Estados dentro de Estados. O poder fragmentado. Regresso à política, pode ser — mas a política alargada a toda a sociedade e não a tradição unívoca estatal. Regulação — independente, privada, socializada, tanto faz — micro-regulação ágil, não intrusiva, não limitadora, mas fiscalizando, escrutinando todos os poderes, em todas as frentes, devidamente descentralizadas. Pensem nisto.







Juvenis preocupações O Presidente da República encomendou à Universidade Católica um estudo sobre a participação da juventude na vida cívica, que se veio a chamar Os Jovens e a Política. O estudo lançou um clamor e os jovens foram imediatamente classificados de ignorantes. Os dados mais espectaculares e que mais atenção atraiu e choque causou rodearam três perguntas: qual o primeiro Presidente da República eleito depois do 25 de Abril, qual o número de países da União Europeia, se o actual partido do Governo possui mais da metade ou menos da metade dos deputados na Assembleia da República. Entre um terço e metade dos portugueses com menos de 29 anos não respondeu satisfatoriamente a estas perguntas.

Isto não é grave. Os jovens não são ignorantes, são o que são. Esta falta de interesse pela Política, ou pela História, não é nada de novo, ou preocupante. E é partilhada pelas gerações precedentes. Formam uma mole nacional, ou uma mole mundial com pequenas variações percentuais consoante a geografia. É normal que só algumas minorias se dediquem a um aprofundamento dos seus conhecimentos e manifestem vontade de participar na vida cívica. São estas minorias que dinamizam a sociedade intervindo na esfera pública e privada e a quem costumamos chamar elites. Poderia não ser assim e a civilidade poderia ser mais contagiante. Não tem acontecido. Nem é habilitação que possa ser induzida pela coacção ou educação, como desejariam aqueles que anseiam pelo Novo Homem.

O que é preocupante é que alguns dos grupúsculos de jovens activos e politizados tenham uma formação doutrinária tão deficiente, que estejam equivocados e não vejam bem a diferença entre social-democracia, socialismo ou liberalismo (e inclusive não saibam o que é o comunismo real), tenham um tão simples conhecimento de como funciona o mundo e estejam tão carregados de ideias feitas não passando muitas vezes de uma recriação teórica das gerações anteriores, portanto uma sociabilização bem feita, que coloca estes jovens num mundo que já não existe.

As novas gerações, segundo conclusões do estudo da Universidade Católica, estão mais atentas a formas de participação política menos formais e menos convencionais. Atribuem, então, menos eficácia ao voto que, “efectivamente, tendem a praticar menos. Mas não é seguro que isso se verifique em todas as circunstâncias: este estudo sugere que, no que respeita ao referendo sobre a despenalização da gravidez, os jovens poderão ter participado tanto ou mais do que os mais velhos. E se votam de facto menos noutros actos eleitorais, isso pode estar ligado à sua maior dificuldade em se identificarem com a oferta partidária existente e com as categorias nas quais o combate político e ideológico é (ainda) travado, e não tanto ao facto de estarem mais alheados da vida cívica do que o resto da população.”

No todo, não se verifica um retrocesso cultural no país. A escolaridade aumenta, as formas de difusão da informação multiplicam-se e a actividade cultural e artística é bastante intensa. Compare-se a realidade nacional de agora com a de há trinta anos atrás. As novas gerações não sentem desconforto em relação ao regime ou ao país. Gostam do regime, vivem comodamente em democracia, sem sobressaltos, e provavelmente não se sentem atraídas pelo pessoal que gere o regime. Não lhe têm grande respeito. Nem medo. Estão a passar os tempos em que os portugueses temiam a autoridade.

Efectivamente, no geral – generalizemos – temos um pessoal político de muito má qualidade a exercer funções administrativas ou partidárias. Temos também um altivo grupo – como eu ou alguns de vocês, caros concidadãos – que profere estes juízos vigorosos, que prefere olhar, sem sujar as mãos. Deus nos guarde. Porque o que é mesmo preocupante é o facto de a maior parte dos altos ou baixos funcionários da política serem tão ignorantes como o resto da população, não terem educação doutrinária ou moral (nem maneiras), nem terem o menor interesse em pensar ou adquirir novos conhecimentos e a sua actuação não ser nunca sujeita a um balanço sério. E é muitíssimo preocupante que personagens que deixaram bem claro aos olhos de todos os danos que causaram ao país e quão pouco recomendáveis são não sejam sancionados na sua progressão na carreira, escapando sempre a um controle de qualidade.


O estudo do Centro de Sondagens e Estudos de Opinião da Universidade Católica – Os Jovens e a Política – teve a coordenação de Pedro Magalhães e Jesus Sanz Moral. Pode ser consultado aqui .








Basicamente pensamos através de um efeito reflexivo, por contaminação. O nosso raciocínio não é muito requintado. Coisas que ouvimos ou lemos vão-se alojando algures no nosso cérebro, ou flutuam na memória RAM, juntando-se a outros dados já existentes. Quando produzimos um pensamento original esse pensamento é já uma mistura de outros, de autorias várias. Nasce de associações, activado por choques eléctricos que ocorrem no cérebro. O resultado final é variável: depende das fontes, do material utilizado, da qualidade ou da ginástica mental. Assim se expelem pensamentos mais ou menos originais. Ou nada originais.

As ideias vão-se encostando umas às outras, vão-se empurrando e confraternizando e produzem o pensamento comum, também chamado ideia-feita. É o efeito de contaminação. Ideias que contaminam outras: se se dá o caso de serem ideias com uma sustentação duvidosa daqui nascem afirmações e verdades duvidosas. É muito fácil uma sociedade inteira, um país inteiro, um mundo inteiro repetir ideias palermas, sem se lembrar de as pôr em causa. Sem se lembrar de investigar a origem e veracidade dos dados que compõem a ideia. A ideia-feita que se propagou por contacto físico, pelos meios de comunicação de massas, que parecia tão atraente, tão luminosa. Uma ideia tão acertada, tão lúcida.

Experimente, por favor, aplicar este raciocínio às grandes ou pequenas questões que atormentam a sociedade. As questões que todos repetem, sem conhecerem a origem. Se retirarmos peça a peça e observarmos com cuidado podemos concluir que alguns destes pedaços nunca foram reais. Ou que são especulações ensaiadas. E que aquela ideia não presta. Experimente, caro concidadão, fazer isto no editorial de um jornal.