Soraya Vasconcelos
"A Cabine do Amador" (colectiva)
Espaço Avenida
Avenida da Liberdade, 211, 1º D, Lisboa
Quarta a Sexta, 18:00 - 22:00
Sábado e Domingo, 16:00 - 21:00
14 a 30 de Março de 2008











O Verão é uma estação parva porque as moscas também são parvas e andam por todo o lado. Os seres humanos vão para a praia e as moscas ocupam o seu lugar. Estão por todo o lado e com ideias impecáveis, de mosca. Ideias glutinosas, que se agarram às paredes e sujam, como as de certo psiquiatra que, apanhando uma janela aberta, entrou para uma das páginas do jornal Público e ali ficou, impecável, claro.

Doutor, não pode explicar com maior clareza que o Homem é um animal e que portanto é um ente possuidor de agressividade e que isso é normal? E que é saudável deixar expandir a agressividade? Saudável para cada um e para todos — digamos, um país, o mundo. Mas o psiquiatra tem medo das demonstrações de vitalidade. Eis a sua visão: a civilização encarrega-se de entreter o Homem com uns espectáculos e etc., satisfaz-lhe as necessidades imediatas, tornando-o um ser pacificado. Circo e pão. Uma sociedade bonita, sem conflito. É este o rumo que não se pode perder.

E é isto que desejamos para nós próprios? Ou para os outros? É para isto que nos aplicamos, mesmo sem sabermos? Serão então bem-vindos os parvos, que se limitarão a viver de forma mais animal possível, mas expurgados da agressividade. Inconscientes, seguindo o dono (ou o líder). A civilização arrumada.

O pior pesadelo de alguém que morde a polpa da vida e preza a sua independência é imaginar que o inevitável terá de acontecer e que a sua vida é encaminhada por uma organização parda escondida por baixo de uma gabardina. Há a suspeita. Há, a tempos, quem o defenda. Admiro a frontalidade engravatada, o pesadelo viscoso que nos querem esfregar na pele, o vómito que me provoca. Vomito todo o conteúdo do meu aparelho digestivo até me restar unicamente a bílis, que cuspo, amarela, imitando as moscas, espalhando o ácido dissolvente que nos salva. Senhor doutor, arde-me tudo.

Mas a civilização é também um agente de violência. O excesso de civilização resulta em vontade de excessos. Gastronómicos, hooligânicos, ou a simples entrega aos prazeres da adrenalina, da agressividade primordial. É raro o ser humano que não tenha necessidade de sangue. Mesmo adormecido pelos encargos da sobrevivência — emprego, deslocações e outras coisas cansativas — ou adormecido pelo doce lar e pela TV. É uma entidade frustrada se não se entrega à violência. Aos rugidos, às ameaças, à pancadaria. Um ser vivo precisa de carnalidade activa. A organização e o controlo podem amolecer alguns. Todos os outros serão uma massa de frustrados, encurralados numa sociedade que os vigia. Podem tornar-se extremamente violentos. Porque se sentem presos, ou entediados. Mas não fazem guerras. As guerras são idealizadas pelos grandes civilizadores.



[Este texto tem por base o texto de opinião de Pedro Afonso, médico psiquiatra, publicado no jornal Público do dia dois de Agosto de 2008, inexplicavelmente.]

























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A criança deu consigo distraída a roçar com a mão um ferimento antigo no alto do joelho. Debruçou-se para ver de perto — sabiam fasciná-la, as crostas, irresistível atracção com uma pontinha provocadora muito delas.

— Vou arrancar-te, ó se vou, mesmo que não seja a melhor altura, mesmo que estejas colada ao meio. Quero lá saber que doa!

Prudente, tacteando os bordos da chaga, intrometeu a unha sorrateira e — oh! — sem custar nada, ali de repente sem a menor resistência, a crosta escura destacou-se por inteiro deixando à mostra um bonito círculo de pele rosada muito lisa.

— Bravo! Bravo! — não doía esfregar a cicatriz. Apanhou então a crosta, pousou-a na perna e, com um safanão, mandou-a bem longe mesmo à ponta do tapete. — E repara só como é grande, o tapete, muito maior que o campo de ténis, muito maior! — Negro, vermelho, amarelo, o tapete cobria a entrada desde a escada, onde a criança se agachava, à porta distante. Pôs-se a admirá-lo com ar sério, como se o visse pela primeira vez, e de repente um estranho fenómeno: parecia que as cores viviam, se animavam e lhe saltavam à cara num deslumbramento. Que esquisito!

— Já vi tudo, já compreendi: os vermelhos são brasas, carvões ardentes. Se lhes toco fico queimado. Queimado, sim senhor, ou morto, feito carvão. E os negros?, pois vamos lá... os negros cobras, isso mesmo, cobras horríveis e venenosas, víboras aos montes, serpentes grossas como troncos de árvore. Basta tocar uma e pronto, sou logo mordido, morto, nem chego ao jantar. Mas se conseguir atravessar de ponta a ponta este tapete perigoso — sem me queimar nem ser mordido — então amanhã, dia dos meus anos, vão-me dar um cãozinho de prenda.

Para avaliar melhor a selva de lagoas de cor e morte levantou-se, subiu vários degraus. Apoiado o rosto grave no corrimão — olhos azuis logo abaixo da franja platinada, queixo bicudo — perscrutou demoradamente o tapete. Conseguiria haver-se com a aventura? Podendo apenas caminhar no amarelo era preciso que ele existisse em maior quantidade. Pesou na melhor consciência os riscos: nalguns pontos o amarelo fazia-se muito estreito; pedaços havia, perigosos, em que nem existia, embora parecesse à primeira vista, que se prolongava, contínuo, até ao outro lado. Vendo bem, qual a dificuldade da empresa? No dia anterior não percorrera triunfante a longa álea de tijoleira sem pisar uma só junta? Depois dessa façanha o tapete não punha dificuldades intransponíveis. Pena era que houvesse tantas serpentes... Só pensar nelas o electrizava em correntes de medo, arrepios velozes pernas acima, picadas de alfinete que pareciam cócegas nas plantas dos pés.

Desceu vagaroso os degraus e plantou-se à borda do tapete. Avançou um pé, calçado de sandália, e pousou-o num motivo amarelo com delicadeza, fazendo depois o outro juntar-se ao primeiro. (Naquele amarelo só havia espaço para os pés juntos.) Até ali correra tudo bem. Ia a caminho. Mas ainda assim o rosto cheio, oval perfeito, crispava-se mais pálido do que era hábito. Braços abertos para manter o equilíbrio, resolveu erguer bem alto a perna sobre um buraco negro e ameaçador visando com o calcanhar um friso amarelo, delicado, que via do outro lado. Um segundo passo e parou nervoso, para respirar. Media pelo menos cinco metros o friso estreito que tinha à frente. Avançando na maior cautela ganhava tempo como um funâmbulo às contas com a corda-bamba. A lista acabava de lado em arabescos, e foi obrigado a um salto por sobre um emaranhado sinistro de vermelho e negro. Tropeçou porém a meio do caminho batendo os braços feito louco, autêntico moinho de vento, e reencontrou o equilíbrio na margem oposta parando, cansado, num repouso bem merecido. Os músculos tinham-se contraído no esforço do andar em pontas, braços abertos, punhos fechados. São e salvo na ilha amarela recuperava a calma, certo de não cair no abismo. — Como era bom estar ali!, poder ficar sempre no amarelo seguro, livre de todos os perigos! Mas aquilo de chegar ao fim preocupava-o, queria sentir-se merecedor do tal cãozinho.

Toca a recomeçar a viagem. Avançava agora numa lentidão extrema, á cada passo parava para avaliar o ponto exacto em que devia pôr o pé. A dada altura teve porém de escolher entre dois caminhos, à direita e à esquerda. Acabou em decidir-se pela esquerda (mais difícil, todavia) só porque atravessava nela menos negro, e o negro é que assustava. Com um olhar rápido avaliou o caminho percorrido e verificou que retroceder era impossível, estava feito o mais difícil, vencida mais de metade. Também seria inútil tentar uma fuga com saltos de lado porque o tapete era largo. Custasse o que custasse tinha de chegar ao fim, embora tomado de pânico por todo o vermelho e negro a enfrentar — pânico idêntico ao da Páscoa anterior quando se perdera sozinho no canto mais escuro do bosque.

— Vamos lá, mais um passo. — Pousou o pé no único pedaço amarelo ao alcance. Só um centímetro o separava agora do abismo negro e não, não iria tocar-lhe, tinha disso a certeza, bem via a fina lista amarela na ponta da sandália. Mas a serpente ondulou como se tivesse sentido aproximar-se o inimigo, ergueu a cabeça cruel de olhar brilhante, disposta a morder ao menor toque.

— Não hei-de tocar-te! Não podes morder-me! Vê lá bem que não te toco!

Silenciosa, deslizou perto outra serpente levantando também a cabeça prenhe de ameaças: eram duas cabeças, quatro olhos que esperavam o pedaço de carne descoberta sem defesa, à frente da tira da sandália. A criança ergueu-se o mais possível no bico dos pés. Aterrorizada, deixou passar muito tempo antes de voltar a mexer-se, ou respirar. O momento seguinte era difícil, uma verdadeira passada de gigante. Naquele ponto mais largo tinha de vencer o rio ondulante e negro que rasgava o tapete de lés a lés. Respirando fundo levantou numa lentidão a perna, estendeu-a quanto podia muito muito à frente, baixou-se aos poucos acabando por apoiar a ponta do pé na margem de outra ilha amarela. Quis lançar para diante o peso do corpo, levantar o outro pé, mas não conseguiu. Tinha as pernas demasiado abertas, era impossível desfazer a posição. Baixou os olhos. O rio enrolava-se em baixo, profundo e móvel, com um brilho baço e viscoso. A criança viu então que vacilava e agitou os braços num frenesi para recuperar o equilíbrio: mas começava a perder o pé, a inclinar-se inexoravelmente para a direita, primeiro devagar, depois mais e mais depressa. No último instante ainda deitou a mão ao vazio, por instinto, como se quisesse amortecer a queda. Mas de nada valeu, mergulhou no magma negro, borbulhante, deixando escapar um grito de pânico.

Lá fora, ao sol e não muito longe de casa, a mãe andava à procura do filho.


(in Someone like you, 1953)


Roald Dahl nasceu de pais noruegueses em 1916 (Llandaff, País de Gales), dos 19 aos 22 anos andou nas vias aéreas da RAF, depois delas rumou a Washington onde veio a descobrir que também era, afinal, escritor. Alguém como nós — avisa, quando decide o título a esse livro que mais serve, entre os seus, o excepcional talento do insólito. De facto, bem descuidosos na segurança deste conforto burguês, página a página caem os personagens em traições ocultas pelo secreto das suas amenidades. Um tapete elegantemente decorado? É ler que perigo insuspeitado contém...













"Ao longo da guerra e nos anos seguintes, muita gente ganhou fácil e rapidamente dinheiro. Como as acções num mercado em expansão, qualquer negócio dava lucro. As pessoas julgavam ter faro para o negócio quando, finalmente, estavam unicamente em maré de sorte. O vale agora está em maré de azar e somente os grandes investidores têm sucesso. Como não há interferência do elemento humano, as leis económicas funcionam como a álgebra do liceu. Os ricos estão cada vez mais ricos e os outros cada vez mais falidos. Os grandes capitalistas não têm de ser espertos, impiedosos ou empreendedores, nem têm de pensar ou fazer o que quer que seja, basta não se mexerem para ganhar dinheiro a jorros. Uma pessoa tem de estar ao nível dos grandes capitalistas ou, então, aceitar qualquer emprego que lhe dêem. A classe média aperta o cinto e apenas um em mil se safa. Os ricos são o casino e os pequenos agricultores os jogadores. Se continua a jogar, o jogador perde o dinheiro, mas tem de insistir para não perder por falta de comparência. Os grandes capitalistas são donos de todos os bancos da região e, quando o pequeno agricultor abre falência, ficam com tudo, pelo que se tornarão, muito em breve, nos donos de toda a região."



William Burroughs, Junky, 1953
Editorial Notícias, 2004, Tradução de José Luís Luna



























2003. Marca: Patrick Cox Wannabe. Fotografias: David LaChapelle. Manequins: Sophie Dahl, Ruth Crilly e Chris Shuh


Podemos ter a tentação de pensar que existem paraísos, ou que existem culturas ou povos impolutos e cheios de dignidade, que nos fazem corar de vergonha. E podemos facilmente constatar que tudo não passou de um mito, uma ideia construída. Impor-se como padrão de exigência e exemplo a seguir é uma questão de atitude, de fabricação de imagem. Uns colocam-se numa posição de superioridade, outros de subserviência. Quando na década de 1960 ou 1970 Portugal era repudiado por manter territórios ultramarinos com o estatuto de colónia, também alguns dos países que se encrespavam mantinham (e mantêm ainda) colónias, como a Grã-Bretanha ou a França. A Grã-Bretanha só reconheceu oficialmente a independência da Rodésia/Zimbabwe em 1980 e são muitos os protectorados e territórios britânicos espalhados pelo globo. Foi a raiva e a frustração da França causadas pela agonia do seu império que originaram a Guerra do Vietname, depois continuada pelos EUA. Ninguém dá lições a ninguém. E quem quiser que enfie o chapéu da insignificância. Ou da relevância.

Quando falamos em liberdade de expressão muitas vezes a diferença entre uma democracia e uma ditadura é só de quantidade. Num regime há mais liberdade do que no outro. Mas há sempre, mesmo nas actuais democracias liberais, censura. Naked Lunch, de William Burroughs, só pôde ser publicado na Grã-Bretanha em 1964. Parece que o problema era a fartura de palavras obscenas. Uns anos mais tarde, em 1996, o filme Crash, de David Cronenberg, ainda não estava distribuído na Grã-Bretanha. Havia grande contestação e aguardavam-se notícias do British Board of Film Classification. Que após demorados estudos (uma deliberação com 500 palavras) considerou que o filme não era ilegal e estreou em Junho de 1997. Mas foi proibido pelo Westminster Council, tendo como resultado não ser exibido em nenhum cinema do centro de Londres. J. G. Ballard, o autor de Crash (o livro, 1973) diria: “It says something about us, doesn’t it? We are not considered ‘adult’ and ‘mature’ enough to see this film. We’re too vulnerable; we may go out and behave badly as a result. Are they enlightened, these Virtual Reality Police? It highlights the nervousness of England: we’re trembling in our shoes at the thought of being corrupted by this film, which has far less explicit sex than any Sharon Stone film, far fewer car crashes than the Die Hard movies. In a sense, we’re policing ourselves and that’s the ultimate police state, where people are terrified of challenge.”

Recentemente, em 2003, foi proibido na Grã-Bretanha um anúncio da campanha de Primavera/Verão da marca de sapatos Patrick Cox Wannabe fotografada por David LaChapelle. Existe neste país um organismo chamado Advertising Standards Authority (“working to keep UK advertising standards as high as possible” é o lema). É um regulador de publicidade e recebe queixas: neste caso o referido anúncio, publicado na revista i-D, foi considerado inadequado por um leitor, parecendo “retratar um acto de sodomia”. A Advertising Standards Authority investigou e deliberou que, tendo em vista que quase cinco por cento dos leitores da revista têm idades entre os 15 e os 17 anos, o anúncio poderia ser seriamente ofensivo e não poderia ser publicado de novo. Patrick Cox estranhou, parecia-lhe um anúncio “colorido, divertido e bonito”. Além disso tratavam-se de ginastas que vestiam jockstraps, o que tornaria a penetração impossível. As outras peças da campanha não tiveram perseguição semelhante. A estrela, Sophie Dahl, manequim, actriz, escritora, celebridade, captou as atenções remanescentes. Por coincidência, Sophie Dahl esteve envolvida anos antes em polémicas escaldantes por protagonizar um anúncio do perfume Opium de Yves Saint Laurent, vestida unicamente com jóias e sapatos, deitada, branca, irreal, sobre veludo negro. Na Grã-Bretanha o anúncio foi retirado dos outdoors, em França foi totalmente proibido.

Rodrigo de Almeida

[Fontes: guardian.co.uk, elmundo.es, vogue.co.uk, terrysouthern.com,
thefileroom.org, Kevin Jackson / Sub Dee Magazine / ballardian.com,
sophie-dahl.com, Wikipédia]












Sempre que alguém entra em discutir o carácter do povo português, pode adivinhar-se que, a certa altura da análise, dirá que uma das mais notáveis faculdades do nosso espírito é o excesso de imaginação. Por um acaso inexplicável, esta apreciação vulgar resulta justa. É certo que o português sofre duma imaginação excessiva.

Ora as criaturas de imaginação excessiva são fatalmente enfermas dum defeito; esse defeito é a deficiência de imaginação.

Isto pode parecer um paradoxo a quem ainda creia, ingenuamente, que há paradoxos neste mundo. A asserção, porém, é tão fácil de demonstrar que não vale a pena reparar no modo como se apresenta.

Tomemos um exemplo conhecido. É o caso desses literatos modernos que em sua obra se entusiasmam pelos loucos, pelos vagabundos e pelos criminosos natos, ou, em grau menos sangrento, pelos proletários "rotos e oprimidos" e outros objectos análogos. Ora todo o artista, se não por condição social, é, pelo menos, por temperamento, o contrário de tudo quanto os loucos, os criminosos natos ou os proletários realmente e verdadeiramente são. Sucede, pois, que a sua simpatia por tais criaturas só pode nascer da violenta necessidade de sair para fora de assuntos do meio em que vive — tanto no meio social, de gente pacata e apenas palavrosa, que cerca os artistas, como do meio, por assim dizer, nervoso, isto é, aquela disposição requintada e exigente que é a atmosfera espiritual em que o artista vive consigo próprio. E essa necessidade de sair para fora da atmosfera psíquica, onde respira, é manifestamente trabalho da imaginação excessiva. De resto, o género literário que esta espécie de autores vinca — assuntos excessivos, sentimentos exagerados, estilo complexo e doente —, tudo isso confirma que se trata dum fenómeno de excessiva imaginação.

Mas, se colocássemos um destes literatos entre criminosos natos reais, entre verdadeiros loucos ou entre proletários existentes, condenando-o, não a atravessar esse meio, mas a viver nele, o desgraçado só não fugiria, se o não deixassem fugir. A mesma requintada condição nervosa e imaginativa, que lhe faz o entusiasmo por esses meios, lho tiraria, se neles se demorasse.

Que explicação tem este fenómeno? Aquela que de entrada demos: a deficiência imaginativa que caracteriza os imaginativos em demasia. Se ao construir no seu espírito uma representação nítida dessas figuras que o atraem, o artista conseguisse imaginá-las a valer, com absoluta nitidez, tal nitidez equivaleria a um antegosto desses próprios meios, e resultaria, desde logo, aquele nojo por eles que um contacto real causaria.

Toda esta demonstração veio a propósito do excesso de imaginação do português. E o fim a que veio é podermos estabelecer claramente qual a terapêutica a aplicar neste caso. Com a demonstração, que fizemos, essa terapêutica ficou indicada. Aqui, como na homeopatia, simila similibus curantur, o excesso imaginativo do português, que tão daninho lhe tem sido, só pode ser curado mediante uma cultura cada vez maior da imaginação portuguesa. Educar as novas gerações no sonho, no devaneio, no culto prolixo e doentio da vida interior, vem a dar em educá-las para a civilização e para a vida. Sobre ser fácil e agradável, o tratamento é de resultado seguro.

O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir. Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro, e um auto-D. Sebastião em série fotográfica do Grandela. No meio disto (tudo), a República não acaba.

Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia. É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado. Cantamos o fado a sério no intervalo indefinido. O lirismo, diz-se, é a qualidade máxima da raça. Cada vez cantamos mais um fado.

O Atlântico continua no seu lugar, até simbolicamente. E há sempre império desde que haja imperador.

Nada há de menos latino que um português. Somos muito mais helénicos — capazes, como os Gregos, só de obter a proporção fora da lei, na liberdade, na ânsia, livres da pressão do Estado e da Sociedade. Não é uma blague geográfica o ficarem Lisboa e Atenas quase na mesma latitude.









Excitações perfeitamente descontextualizadas e descontroladas. Quem disse o quê? Quem sabe? Que interessa? Que interessante!

O país está em guerra, de Bragança ao Algarve. A rua é a mais solene e grave das advertências ao Poder, quando o Poder, mesmo democraticamente eleito, quase se traveste de tirania. A sociedade mediática criou uma embriaguês de estímulos que embrulha e asfixia, manipula e embrutece. É preciso lidar com ela como com a poluição. A ninguém parece estranho que de repente decidam eleger a ministra como a ‘besta negra’ que vai encher o país de analfabetos? O país não pode ser governado pela agenda de lobbies e sindicatos. O clima de insegurança que se vive em Portugal não pode ser dissociado da instabilidade social que o país atravessa. Começa a chegar o tempo para uma ‘refundação’ da democracia portuguesa. O país oscila entre o oásis e o abismo. A democracia portuguesa está deformada. Os partidos estão desacreditados e os políticos são desacreditantes. Portugal sobrevive num sonambulismo onde o desacerto se tornou coisa aprazível e a mediocridade a medida de todas as coisas. Os tempos estão difíceis. Mais do que a crise, preocupa-nos a atitude com que os portugueses parecem não enfrentá-la. Vamos vendo um País, em grande medida, paralisado e atemorizado. É um destino trágico que um governo socialista seja o mais liberal de todos. O primeiro-ministro é um grande actor. Se o combate à criminalidade é assunto de polícia, o ‘combate’ à percepção de que o país está mais perigoso é um assunto de política. Oposição a este Governo do PS? Só se importarmos um partido de direita lá de fora. Os professores vão para a rua porque uma senhora com um saudável mau feitio acabou com o Ministério dos Professores e tenta, há três anos, criar o Ministério da Educação. Vivemos num País que já não tem a ver com o país de Abril. Há um ranço salazarista nesta gente. Não vale a pena escamotear. A onda de crimes violentos que nestes tempos tem ‘rebentado’ por este país fora está a provocar medo e um forte sentimento de insegurança nos cidadãos. Os professores estão fartos de serem tratados como um bando de malandros. Não vale a pena minimizar a realidade que temos em matéria de segurança, porque ela pode não ser estatisticamente relevante mas no terreno, sobretudo nas áreas metropolitanas, é potencialmente explosiva. Ao fim de anos de PS e PSD, juntos, separados e coadjuvados pelo CDS, os portugueses já não comem pão. Alimentam-se de brioches barrados com chantilly.


[Fonte indirecta: jornal Público em Fevereiro e Março de 2008]














































Graça Pereira Coutinho, Luís Nobre,
Maria Pia Oliveira, Sofia Castro
"Ocupação / Lab 2"
Átrio do Ministério das Finanças, Terreiro do Paço
Segunda a Sexta, 8:00 - 20:00; Sábado, 15:00 - 20:00
1 a 30 de Março de 2008

Fotografias: Graça Pereira Coutinho: 5, 8, 10, Maria Pia Oliveira: 3, 4, 6, Sofia Castro: 1, 2, 7, 9