Não é muito sedutora a imagem de um Polícia a apontar uma arma para mim, para o veículo, para verificar informações injectadas no Chip. É o cenário de um quotidiano agressivo e policiesco. O meu carro filado. Sensação semelhante à de ter incrustada uma pulseira electrónica. Num tornozelo. Como um pombo. Ou um cadastrado infame. Ser considerado um cadastrado em potência. A pulseira a apertar se eu não reagir a uma ordem categórica. A pulseira viva, apertando a carne, cortando a circulação, produzindo dores excruciantes. Uma perna inutilizada, inchada, vertendo sangue.

O sangue também monitorizado e alterado, biotransformado, envenenando-me, emitindo sinais de alerta, origem de relatórios e conjecturas, delícias da Bio-Polícia. E eu caído, com a perna roxa, arrastando-me. Mal. Sou um empecilho tombado à beira da estrada, pronto para ser recolhido por um dispositivo mecânico securitário que patrulha as ruas da Cidade.

Ou ser atingido por um raio imobilizador disparado por um elemento das Forças de Segurança do Omni-Estado. Após detectadas hipotéticas irregularidades o raio fere a viatura motorizada, deixando-a inerte. O condutor, eu, saio, recuando atemorizado, sou também atingido pelo fluxo brilhante e incandescente que jorra da arma. Caio fulminado, como numa banda desenhada da Marvel. A BD é a realidade.
















[Émon. Exercícios de estilo. 4] Émon está sentado no chão, encostado a uma parede, uma mancha verde, um montículo de ossos dobrados. À sua frente, o homem-activo agita-se, percorre o pavilhão, transporta vigas de madeira. Por isto, por ter este hábito, ou outros com igual exigência de força física, tem a musculatura desenvolvida e executa as suas actividades com leveza e elegância. T-shirt, calças justas, botas bicudas, tudo preto. Os braços nus, lívidos. Segura uma viga com a mão direita, uma viga comprida. Manipula-a com a força de um só braço, coloca-a paralela a outras, enquanto anda: pernas de perfil, passada larga, tronco a três quartos, olhando para a frente. Constrói estruturas paralelas e ortogonais ocupando todo o solo do pavilhão. Ouvem-se, ritmadamente, sons, do contacto dos materiais e do eco. Depois este homem-activo desconstrói as estruturas e cria outras novas. É este o seu trabalho de atelier.

No chão, Émon extrai duma perna uma pequena bolsa rectangular forrada com um tecido impermeável de cor violácea. Abre: é um microcomputador. À direita, na vertical, está encaixado um cigarro de haxixe. Acende-o. O fumo sobe numa linha recta. Émon liga o computador ao cérebro utilizando um cabo que introduz num orifício situado sobre a orelha direita. Filma o homem-activo utilizando os olhos como objectivas. O homem-activo percorre as suas estruturas incansavelmente e dá voltas ao atelier durante sessenta minutos: a duração do filme registado pela cabeça-computador de Émon, alterado pelos fumos do haxixe.

O homem-activo senta-se ao lado de Émon. Temos agora uma mancha negra junto de uma mancha verde, que se destacam de um fundo branco, tendo em frente estruturas geométricas elaboradas com vigas de madeira que se prolongam no espaço. O homem-activo encosta a cabeça à do seu vizinho e recebe vibrações, mensagens contraditórias, fluxo intelectual que lhe chega em rede, do computador, da cabeça de Émon. Imagens, flashes luminosos, teoria, vozes, matemática. Após um breve período consegue distinguir a linguagem molecular exclusiva de Émon, que passa para o seu corpo, entrando na corrente sanguínea. Contém essências de Émon, muito agradáveis e pacificantes. E contém também elementos seus, produzidos enquanto deambulava pelo espaço interior.

Essências e elementos alimentam-se de um e do outro, fundem-se e desenvolvem-se em originais e belas combinações. O fluxo mantém-se, passando de uma cabeça para a outra, indo ao computador e voltando. Gera-se uma nova forma de vida com início no homem-activo. Os seus braços lívidos ganham qualidades incandescentes, enquanto à volta dos dois se forma uma aura vermelha. Que solidifica, partindo-se depois como um molde de cera. Eles ficam intactos.

Django






























































André Guedes
"Better Days, For These Days"
Rua Tenente Ferreira Durão, 18-B, Lisboa
Terça a Sábado, 10:00 - 20:00
24 de Abril a 31 de Maio de 2008


Sequência Final
, 2007, difusão sonora dos dez últimos minutos do filme L’Eclisse (1962) de Michelangelo Antonioni [música de Giovanni Fusco, som de Claudio Maielli] durante os dez últimos minutos de abertura de um espaço / Better Days (Eckland), 2008, revista Il Dramma, nº3, 1969 / Better Days (Vitti e Sordi), 2008, revista Il Dramma, nº10, 1969 / Better Days (Degermark), 2008, revista Il Dramma, nº1, 1969 / Better Days (Delon), 2008, revista Il Dramma, nº7, 1969 / S/Título (Vestíbulo I), 2007, planta artificial e cinzeiro provenientes de um cinema / S/Título (Corrimão), 2007, painel em aglomerado de madeira revestido a tecido proveniente de um cinema / Calendário I, 2007-2008, três cadeiras e um sofá utilizados sucessivamente entre os anos 1960 e 2007 no vestíbulo de um cinema / S/Título (Dois patamares), 2007, réplica de dois espelhos de um salão de cabeleireiro, posteriormente instalados na escadaria de um cinema / S/Título (Vestíbulo II), 2007, caixa em madeira revestida a melamina proveniente de um cinema / S/Título (Arrecadação), 2007, cadeira de repouso proveniente de um cinema / S/Título (Escadaria), 2007, réplica de um cortinado de um cinema; estrutura em ferro / S/Título (forma de uma obra anterior), 2008, painel em contraplacado de faia semelhante a uma obra concebida anteriormente; acção realizada por um conjunto de cinco pessoas; diaporama de slides em dois projectores (duração: 6’ 50’’) / S/Título (Vão), 2008, pedaços de relva em plástico provenientes de um cinema.






















































Pedro Cabral Santo
"Tilt"
Centro de Arte Moderna
Fundação Calouste Gulbenkian
Rua Dr. Nicolau de Bettencourt, Lisboa
Terça a Domingo, 10:00 - 18:00
13 de Março a 22 de Junho de 2008








"Esse sistema de leis, portanto, que está ligado à criação do subsídio, parece não merecer nenhum dos elogios que lhe têm sido dispensados. O progresso e a prosperidade da Grã-Bretanha, que tantas vezes têm sido atribuídos a essas leis, podem muito bem ser imputados a outras causas. A segurança que as leis da Grã-Bretanha dão a toda a gente, de desfrutar dos benefícios de seu próprio trabalho, basta por si só para fazer qualquer país florescer, não obstante estes e mais outros vinte regulamentos comerciais absurdos; e esta segurança foi aperfeiçoada pela revolução, mais ou menos na mesma época em que se criou o subsídio. O esforço natural de qualquer indivíduo para melhorar a sua própria condição, quando se permite que ele actue com liberdade e segurança, constitui um princípio tão poderoso que, por si só, e sem qualquer outra ajuda, não só é capaz de levar a sociedade à riqueza e à prosperidade, como também de superar uma centena de obstáculos impertinentes com os quais a insensatez das leis humanas com excessiva frequência obstruem o seu exercício, embora não se possa negar que o efeito desses obstáculos seja sempre interferir, em grau maior ou menor, na sua liberdade ou diminuir a sua segurança. Na Grã-Bretanha, a indústria está perfeitamente segura; e embora esteja longe de ser totalmente livre, é tão livre ou mais livre do que em qualquer outra parte da Europa."


Adam Smith, Investigação sobre a natureza e causas da riqueza das nações, 1776
Tradução de Paula Paço, Editorial Planeta De Agostini, 1997











Imaginamos o Chiado em 1900. Não havia a Brasileira. A Brasileira só seria inaugurada em 1905. Eça de Queiroz não conheceu a Brasileira. Na altura em que por ali existiu, ou forjou existências, o pólo aglutinante era a Casa Havaneza. Mas o Chiado era já o centro da elegância e da intelectualidade. Notam-se, em comparação com o tempo presente, grandes diferenças. O espaço era menos compartimentado, mais livre. O tráfego reduzia-se essencialmente ao eléctrico que seguia a Rua da Misericórdia e eventuais carroças ou caleches. O Largo do Chiado ligava-se ao Largo de Luís de Camões, era uma zona aberta. O trânsito humano era em menor número. E observavam-se, basicamente, as três classes sociais clássicas: povo, burguesia e aristocracia. O povo era invisível, a burguesia exibia fatos janotas e a aristocracia salientava-se pelo luxo e extravagância da roupa. Uma senhora, de escuro, chapéu alto de plumas, o corpo desenhado numa forma com as curvas acentuadas, mas duma forma deveras pudica, uma forma maciça onde encaixava a mulher. Esta mulher, quando passava, destacava-se notoriamente do fundo. E era, com certeza, uma figura conhecida, de família identificável. Podíamos encontrar poucas figuras como esta. Por isso a sua presença era tão flagrante e essencial à composição da personalidade do local.

Contemporaneamente, a massa humana que investe no local, encurralada nos passeios, tropeçando na monstruosa saída do Metro, é uma massa indiferenciada onde nenhuma peça é excêntrica. É um sinal dos tempos. Tempos igualitários, normalizados pela democracia. Não há contrastes, somente pessoas normais e turistas. Só uma celebridade poderia sobressair do movimento constante de passeantes. É um tempo de celebridades. Mas as celebridades são foleiras, não frequentam o Chiado com frequência e estarão, portanto, sempre deslocadas: uma espectacularidade por desadequação, concorrendo com os carros e os engolidores de fogo. Nestes tempos, o que há de mais atraente no Chiado sou eu, quando subo, de óculos escuros e uma gentil t-shirt. Moreno, alto, de ombros direitos.

Django












Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir numa síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro.

O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela — em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz.

A síndroma provinciana compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.

Se há característico que imediatamente distinga o provinciano, é a admiração pelos grandes meios. Um parisiense não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas. Recordo-me de que uma vez, nos tempos do Orpheu, disse a Mário de Sá-Carneiro: «V. é europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa V. é vítima da educação portuguesa. V. admira Paris, admira as grandes cidades. Se V. tivesse sido educado no estrangeiro, e sob o influxo de uma grande cultura europeia, como eu, não daria pelas grandes cidades. Estavam todas dentro de si.»

O amor ao progresso e ao moderno é a outra forma do mesmo característico provinciano. Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso lhes não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção. Diga-se incidentalmente: é esta uma das explicações do socialismo. Se alguma tendência têm os criadores de civilização, é a de não repararem bem na importância do que criam. O Infante D. Henrique, com ser o mais sistemático de todos os criadores de civilização, não viu contudo que prodígio estava criando — toda a civilização transoceânica moderna, embora com consequências abomináveis, como a existência dos Estados Unidos. Dante adorava Virgílio como um exemplar e uma estrela, nunca sonharia em comparar-se com ele; nada há, todavia, mais certo que o ser A Divina Comédia superior à Eneida. O provinciano, porém, pasma do que não fez, precisamente porque o não fez; e orgulha-se de sentir esse pasmo. Se assim não sentisse, não seria provinciano.

E na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redacções, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz. Assim, o maior de todos os ironistas, Swift, redigiu, durante uma das fomes na Irlanda, e como sátira brutal à Inglaterra, um breve escrito propondo uma solução para essa fome. Propõe que os Irlandeses comam os próprios filhos. Examina com grande seriedade o problema, e expõe com clareza e ciência a utilidade das crianças de menos de sete anos como bom alimento. Nenhuma palavra nessas páginas assombrosas quebra a absoluta gravidade da exposição; ninguém poderia concluir, do texto, que a proposta não fosse feita com absoluta seriedade, se não fosse a circunstância, exterior ao texto, de que uma proposta dessas não poderia ser feita a sério.

A ironia é isto. Para a sua realização exige-se um domínio absoluto da expressão, produto de uma cultura intensa; e aquilo a que os Ingleses chamam detachment — o poder de afastar-se de si mesmo, de dividir-se em dois, produto daquele «desenvolvimento da largueza de consciência» em que, segundo o historiador alemão Lamprecht, reside a essência da civilização. Para a sua realização exige-se, em outras palavras, o não se ser provinciano.

O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça de Queirós. E o exemplo mais flagrante porque foi o escritor português que mais se preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado. As suas tentativas de ironia aterram não só pelo grau de falência, senão também pela inconsciência dela. Neste capítulo, A Relíquia, Paio Pires a falar francês, é um documento doloroso. As próprias páginas sobre Pacheco, quase civilizadas, são estragadas por vários lapsos verbais, quebradores da imperturbalidade que a ironia exige, e arruinadas por inteiro na introdução do desgraçado episódio da viúva de Pacheco. Compare-se Eça de Queirós, não direi já com Swift, mas, por exemplo, com Anatole France. Ver-se-á a diferença entre um jornalista, embora brilhante, de província, e um verdadeiro, se bem que limitado, artista.

Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe, O provincianismo vive de inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos.






















































Maria Teresa Silva
"Real Barraca Without a care"
Espaço Avenida
Avenida da Liberdade, 211, 1º E, Lisboa
Quarta a Sexta, 18:00 - 22:00
Sábado e Domingo, 16:00 - 21:00
14 a 30 de Março de 2008


Situados geralmente em zonas de reestruturação urbanística e humana, a disseminação de espaços alternativos no circuito artístico e expositivo é cada vez maior. Pelas características que apresentam, estes espaços funcionam quase sempre como um desafio aos artistas que neles expõem. O espaço Avenida, no número 211 da Av. da Liberdade, enquadra-se em grande medida no que se entende por espaço de intervenção temporária; um lugar que se encontra à disposição da criatividade artística e que se presta ao site specific.

Trabalhar neste género de espaços não é algo estranho para Maria Teresa Silva. Os seus projectos partem usualmente de lugares com história, memórias, mais ou menos desconfortáveis. A impossibilidade de comunicação escrita e verbal, os domínios público e privado e a fugacidade da memória são algumas das temáticas que utiliza como fio condutor.

A artista tem exposto em espaços que não se regem pelas normas institucionais do white cube. A Casa 372, por exemplo, foi um projecto site specific concebido numa casa no Porto para o Evento 5.0. A peça de som apresentada (descrição verbal das várias divisões escolhidas) partia da relação passível de estabelecer entre o lugar e as memórias que o habitavam. No projecto para o edifício Interpress (antiga gráfica onde era impresso o Diário Popular), desenvolveu uma pesquisa sobre o ensino nas escolas primárias durante o período do Estado Novo. Intitulado A História Como Qualquer Coisa de Provisório, o projecto tinha por referente a Revolução de 1974, tema proposto pela Escola Maumaus no âmbito da LisboaPhoto 03. Como resultado, ‘desenhou’ a exposição e através de uma performance fez uso dos elementos que o espaço frio e decadente podia oferecer. Um dos últimos trabalhos, foi o projecto desenvolvido na Bartolomeu5 em 2005. Noventa e oito por quinhentos e setenta e sete funcionou como uma instalação site specific, no corredor e na entrada de um andar num prédio de habitação do séc. XVIII, em Lisboa. O papel de parede com um desenho em relevo delicado, no edifício em mau estado de conservação, foi o contraste encontrado para o desenvolvimento do projecto que tinha como intenção reflectir sobre a ideia deste lugar poder ser privado ou público, sobre as diferentes maneiras de o habitar e sentir, modificando-o de forma a que o público questionasse se o espaço estava ou não a ser habitado naquele momento.

Ao contrário dos outros projectos, Maria Teresa Silva não desenvolve para o espaço Avenida uma instalação site specific. Procurou antes adaptar um projecto com 5 anos, que estava à espera de um lugar que reunisse determinadas condições necessárias à sua realização. A escolha de um espaço expositivo que não fosse neutro (ausente de memórias e vivências) era fundamental para retirar proveito do estado em que se encontrasse e transformá-lo de forma a encenar determinado contexto ou ideia.

O projecto Real Barraca Without a care teve como ponto de partida a visita a dois palácios. Um deles foi visitado pela artista em contexto turístico na companhia de amigos, onde decidiu gravar o som da visita guiada. No outro palácio, tinha definido fotografar algumas das salas fora do âmbito de uma visita guiada, sem pessoas. Com a distância temporal de cinco anos desde ambas visitas e a data da exposição, a peça de texto traduz o domínio mais pessoal da memória das três pessoas que em conjunto visitaram o primeiro palácio. Desta experiência resultaram três peças que ocupam agora quatro salas do espaço Avenida e constituem a instalação expositiva composta por slides, áudio e texto.

Os palácios fazem parte da história e do imaginário infantil. Outrora lugares privados, são hoje lugares públicos que despertam por vezes um certo fascínio no visitante, ou são vistos como ambientes kitsch distantes da realidade contemporânea. Locais dirigidos por uma série de parâmetros que o turismo cultural impõe, no que diz respeito à hora das visitas, à restrição nas filmagens e fotografias, ou ao próprio percurso que é previamente estabelecido, estas circunstâncias despertaram na artista uma vontade de subverter as imposições e restrições colocadas. Os percursos que fez processaram-se de forma diferente. Durante a primeira visita, o som foi gravado de forma sub-reptícia, e para fotografar o outro palácio ultrapassou várias etapas até conseguir autorização.

Trata-se de um projecto que explora as noções de acesso, percepção e interpretação na ligação com o domínio público e com os condicionamentos impostos pelo turismo cultural ao funcionamento do património — condicionamentos que acabam por ser mais ou menos comuns a sítios congéneres. À incerteza do estado inicial do projecto, como um ensaio ou uma experiência com contornos operativos ainda por assumir, alia-se um intervalo temporal que permitiu definir o próprio processo criativo. A artista recria um certo ambiente, onde cada pessoa é convidada a imaginar/rememorar sobre o que ouve e o que vê.


Sandra Lourenço