Rodrigo Amado
"Close / Closer"
K Galeria
Rua da Vinha, 43 A, Lisboa
Quarta a Sábado, 15:00 - 20:00
13 de Dezembro de 2007 a 26 de Janeiro de 2008


Rodrigo Amado é músico e crítico de jazz e é a revelação de 2007 na fotografia, com a apresentação deste projecto na K Galeria. Um conjunto de composições sólidas, intensas, retratos de proximidade afectiva a pulsar realidade e vida.

A fotografia sempre acompanhou o seu percurso artístico, não é uma novidade, embora mantida na penumbra (já se materializou em capas da editora Clean Feed). Mais recentemente o seu trabalho foi acompanhado por António Júlio Duarte, correspondendo a uma maior dedicação e maturidade, resultando no projecto agora tornado público. Outros desenvolvimentos em www.rodrigoamado.com.

Nuno de Almeida Lima




"As pessoas de esquerda tendem a detestar tudo aquilo a que se associe uma imagem de força, supremacia e êxito. Odeiam os Estados Unidos, detestam a civilização ocidental, abominam os machos brancos, repudiam a racionalidade. Está visto que as razões por elas evocadas para detestarem o Ocidente, etc., não correspondem aos seus motivos reais. Dizem que detestam o Ocidente porque é belicista, imperialista, sexista, etnocêntrico e por aí fora, mas quando os mesmos defeitos surgem nos países socialistas ou nas culturas primitivas, encontram logo maneira de os desculpar, ou, no melhor dos casos, admitindo, a contragosto, que tais defeitos existem, ao passo que os apontam entusiasticamente (exagerando-os amiúde imenso) quando surgem na civilização ocidental. É portanto evidente que estes defeitos não constituem os motivos reais para essas pessoas odiarem os Estados Unidos e o Ocidente. Odeiam-nos por estes serem fortes e terem êxito."


O futuro da sociedade industrial, Manifesto de Unabomber
por Freedom Club, Fenda, 1997

















A propósito do sono, essa sinistra aventura de todas as nossas noites, podemos dizer que os homens se deitam todos os dias com uma audácia que seria incompreensível se não soubéssemos que era o resultado da ignorância do perigo.

Baudelaire


Queiram os deuses misericordiosos, dê-se o caso de existirem, velar aquelas horas em que nem o poder da vontade, ou droga ideada pelo homem, conseguem afastar-me das profundezas do sono. A morte é compassiva, porque quem a abraça não regressa, mas para aquele que voltou dos esconsos da noite, conturbado e instruído, não existe paz, nunca mais. Que louco fui, mergulhando com uma fúria arrebatada em mistérios que nenhum homem devia conhecer. Louco ou Deus, era ele – o meu único amigo, que me guiou, que foi à minha frente e que, no fim, percorreu horrores que poderão ainda ser os meus!

Conhecemo-nos, recordo, numa estação de caminhos de ferro, onde era o centro de uma multidão de vulgares curiosos. Estava inconsciente, atirado a uma espécie de convulsão que lhe concedia ao desprezado corpo vestido de negro uma estranha rigidez. Penso que na altura estaria próximo dos quarenta anos de idade, vendo-lhe os sulcos profundos no rosto, pálido e cavado, mas oval e verdadeiramente bonito; e toques de cinza no espesso e ondulado cabelo, na pequena e farta barba, que já tinham sido antes do mais brilhante e profundo negro. O semblante era branco como o mármore de Pentelicus, o corpo longo e possante, quase um deus.

Disse para mim, com o ardor de um escultor, que este homem era a estátua de um fauno da antiga Hellas, recuperado das ruínas de um templo e de algum modo trazido à vida nesta era perdida, vindo aqui sentir o peso e a dureza de anos devastadores. E quando ele abriu os enormes, fundos, furiosamente luminosos olhos negros eu soube que ele seria daí em diante o meu único amigo – o único amigo de alguém que nunca havia tido um amigo – pois percebi que aqueles olhos tinham pousado sobre a grandeza e o horror de territórios que ficam para lá da realidade e do vulgar discernimento. Territórios que eu fantasiara, primorosamente, em pensamentos ociosos. Por isso, enquanto afastava a multidão, dizia-lhe que ele tinha de vir comigo, ser meu professor e mestre em mistérios fulgurantes, e ele concordou, sem dizer uma palavra. Mais tarde descobri que a sua voz era música – a música de cordas penetrantes e de esferas cristalinas. Falávamos muito à noite, e de dia, enquanto eu esculpia o seu busto e lavrava em marfim pequenas cabeças, imortalizando as suas diferentes expressões.

É impossível falar das nossas pesquisas: tinham uma tão ténue relação com a concepção do mundo que os homens vivos partilham. Pertenciam àquele vasto e surpreendente universo de obscura vida e consciência difusa que repousa mais fundo que a matéria, tempo e espaço, de cuja existência só suspeitamos em certas formas de sono – aqueles raros sonhos que estão além dos sonhos e que nunca surgem aos homens vulgares, mas só uma vez ou duas na vida de homens de imaginação venial. O cosmos da inteligência que despertava em nós, nascido de inusitado universo como uma bolha se forma na flauta do truão, lhe toca como só uma bolha toca na sua sardónica origem quando aspirada de volta pelo capricho do brincalhão. Homens ilustrados suspeitam, apenas, mas sobretudo ignoram. Homens sábios interpretaram sonhos e os deuses gargalharam. Um homem com olhos orientais disse que todo o tempo e espaço são relativos e os homens riram. Mas mesmo esse homem com olhos orientais não fez mais que suspeitar. Eu tinha desejado e tentado passar para lá da suspeita e o meu amigo tentou e conseguiu, em parte. Então tentámos os dois, e com extravagantes narcóticos cortejámos terríveis e proibidos sonhos, no quarto da torre, no velho solar no venerável condado de Kent.

Entre os sofrimentos dos dias seguintes figura a grande tormenta – a impossibilidade de falar. O que vi e aprendi naquelas horas de impiedosas explorações não poderá ser revelado. Nunca. Por falta de correspondência com qualquer linguagem ou realidade. Digo isto porque, do princípio ao fim, as nossas deambulações foram de natureza sensível: sensações desconhecidas do sistema nervoso da humanidade vulgar. Eram sensações, sem dúvida, mas por elas passavam incríveis fundamentos de tempo e espaço – coisas que não tinham por base uma existência concreta, precisa. A linguagem humana entenderá melhor o carácter das nossas experiências se lhes chamar mergulhos ou ascensões: em cada período de revelação parte da nossa mente escapava ao que é real e é presente, esvoaçando por horríveis, sombrios e assustadores abismos, ocasionalmente atravessando, rompendo uns característicos e bem definidos obstáculos, que podemos descrever como viscosas, desajeitadas nuvens de vapor.

Nestes voos negros, imateriais, estávamos por vezes sós e por vezes juntos. Quando estávamos juntos o meu amigo ia sempre muito à frente. Eu conseguia aperceber-me da sua presença apesar da ausência de corpo, e um artifício da memória revelava-me o seu rosto, dourado por uma estranha luz, espantoso, de insólita beleza, face inusitadamente jovem, olhos em fogo, semblante olímpico e negrejante cabelo.

O tempo passava, desapercebido: para nós não era mais que uma ilusão. Só posso dizer que nos aventurámos num acontecimento único, que longamente maravilhámos e nos perguntámos porque não envelhecíamos. O nosso discurso era profano e sempre horrivelmente ambicioso – nenhum deus ou demónio tinham algum dia aspirado às descobertas e conquistas que idealizávamos em sussurros. Tremo quando falo nelas, não me atrevo a nomeá-las. Mas vou confiar-vos: o meu amigo uma vez escreveu em papel um desejo que não ousava colocar na língua e deixar escorrer dos lábios – corri a queimar o papel, aterrado. Dirigi-me à janela, olhei fixamente o céu fulgurante. Posso insinuar – mera intuição – que ele tinha projectos envolvendo a condução do universo visível e não visível, projectos que colocavam o movimento da Terra e das estrelas sob o seu domínio, assim como os destinos de todos os seres vivos. Afirmo – e reafirmo – que não partilhava estas aspirações extremas. Nego tudo o que o meu amigo possa ter dito, ou escrito, que me contradiga. Não sou um homem de força para me aventurar pelas esferas do inominável, única forma de alcançar o sucesso.

Houve uma noite em que ventos vindos do espaço nos enrolaram sem freio num interminável vácuo para lá de todo o pensamento e realidade. Percepções da espécie mais enlouquecida e intransmissível vieram embater em nós, conhecimentos do infinito que no momento nos sacudiram de alegria, e agora estão parcialmente perdidas na nossa memória, incapazes para partilha. Atravessámos obstáculos viscosos numa rápida sucessão e, a certa altura, senti que tínhamos sido levados para domínios de lonjura incalculável, onde nunca antes havíamos chegado.

O meu amigo ia muito adiantado enquanto imergíamos naquele pavoroso oceano de éter virginal, e eu via a exultação sinistra que animava a sua flutuante, luminosa, rejuvenescida face-memória. Subitamente o rosto obscureceu, rapidamente desaparecendo, e no momento seguinte descobri-me projectado contra um obstáculo, que desta vez não consegui penetrar. Era igual aos outros, mas superiormente denso – um volume húmido e pegajoso, se me é permitido aplicar estes termos para qualificar elementos deste reino imaterial.

Tinha sido – senti-o – travado por uma barreira que o meu amigo e mestre passara com sucesso. Debatendo-me ainda cheguei ao fim do sonho-narcótico e abri os meus olhos físicos, dominei o quarto da torre onde nos encontrávamos: no canto oposto repousava a forma pálida e ainda inconsciente do meu companheiro de sonhos, fantástico e conturbado, furiosamente belo enquanto a lua espalhava uma luz ouro-esverdeada no seu rosto de mármore.

Então, após um curto intervalo, o vulto no canto agitou-se: tenham os céus piedade e nunca deixem repetir-se o espectáculo que se projectou à minha frente. Não consigo descrever a forma como ele gritou ou que paisagens de infernos invisitáveis brilharam por um segundo nos olhos negros enlouquecidos de terror. Só posso dizer que desmaiei e não despertei até ele próprio recuperar e me sacudir, ansioso por alguém que o afastasse do horror e da desolação.

(continua)

Escrito em Março de 1922
Traduzido por Django







































Rui Chafes
"Eu sou os outros - I am the others"
Galeria Graça Brandão
Rua dos Caetanos, 26, Lisboa
Terça a Sábado, 11:00 - 20:00
23 de Novembro de 2007 a 5 de Janeiro de 2008
















































Pedro Valdez Cardoso
"Crude"
Museu da Cidade, Pavilhão Branco
Campo Grande, 245
Terça a Domingo, 10:00 - 13:00, 14:00 - 18:00
23 de Novembro de 2007 a 13 de Janeiro de 2008








Vinçon. Uma loja de productos de diseño contemporáneo para el hogar, que abriu as portas em 1941, em Barcelona. Este saco foi desenhado em 1995. Vinçon explica: “El destino hizo que un día llegara esta postal a Vinçon. El mensaje y la fuerza que transmitía nos animaron a contactar com su creadora. Barbara Kruger aceptó que su obra se convirtiera en una bolsa para nuestra tienda. La obra original de esta artista neoyorkina tiene el texto en inglés pero ella aceptó la versión castellana de esta manipulada frase de Descartes.”

Ou em catalão, que também é divertido: “El destí va fer que un dia arribés aquesta postal a Vinçon. El seu missatge i la força que transmetia ens van animar a contactar la seva creadora. Barbara Kruger va accedir a que la seva obra es convertís en una bossa per a la nostra botiga. Si bé l’original és en anglès, l’artista de Nova York va acceptar la versió castellana d’aquesta manipulada frase de Descartes.” Passeig de Gràcia, 96, Barcelona. Castelló, 18, Madrid.













Cruzam-se no balneário. Diz Nódi: “Tens um corpo tão bonito, tão perfeito, pareces um príncipe, gostava de encher-te de beijos”. “Podes avançar”, responde o Príncipe, petulante e gracioso. Nódi chega por trás e beija-lhe os ombros, o pescoço, sobe para o rosto. O Príncipe sente-se endoidecer, como se a sua cabeça fosse explodir, uma vibração a arrepanhar-lhe cada músculo do corpo. Mas parece que alguém se aproxima. O Príncipe afasta-se rapidamente. Segreda-lhe ao ouvido: “Falamos depois”, e encaminha-se para a piscina.

O Príncipe entra no recinto, ou antes, sai para o exterior, muito seguro de si, mirando o seu corpo. Apregoa-se, vaidoso, os ombros movem-se com elegância. Rompe o sol e lança um olhar que abrange toda a piscina. Feliz local, soberba piscina. Ao longo das margens fazem-se grupos que conversam. Outros vão analisando o que se passa dentro de água. As suas presenças são alegres, ruidosas, sorridentes, estão em grande descontracção, energizados pelo sol. A passagem do Príncipe causa sucesso, cabelo muito ajeitado, alourado, pele cobreada pela exposição constante aos elementos. A graça! O focinhito! Chega junto da sua turma, já à distância gritavam por ele, atiravam bizarrias. Terminam o aquecimento e iniciam o treino, mergulhando um a um, e nadando desenfreadamente.

Mas esta turma é também uma equipa da Polícia-da-boa-vontade. Esta Polícia intervém em conflitos que necessitam de uma voz conselheira e calmante para plena resolução. Os desmandos são variados: um grupo de pessoas que se enfrentam à pancada, na via pública, motivados por qualquer questão mesquinha ou pitoresca; um assaltante que se barricou atrás do balcão de uma geladaria, recusando-se a sair, apesar de já não ter munições, nem reféns, nem ninguém que lhe sirva um gelado. O gelado será servido por um dos elementos da equipa, mas isto é lá mais à frente; outras vezes há pessoas que se engalfinham no trânsito, certo dia houve um ataque a um automóvel por populares linchardes, pedindo razões ao seu condutor, esmurrando-o, partindo tudo no interior do habitáculo. A Polícia-da-boa-vontade irradiou a cena com a sua presença luxuriante e apaziguadora. Os beligerantes foram conduzidos ao hospital, os carros rebocados, a equipa feliz.

Estava então a rapaziada a meio do seu treino quando o alarme toca no pulso da Capitã. A equipa é reunida. São dez elementos atléticos, bronzeados, nove masculinos capitaneados por uma fêmea enérgica. Há inteiramento da situação, que chega por rádio. Correm para os patins e correm para a cena do litígio.

A piscina é aberta para a cidade, tal como todos os equipamentos públicos. Construída numa pequena elevação, domina a parte baixa da urbe, de prédios pouco elevados e jardins. Do seu recinto saem troços de uma rede de finas vias para patinagem que se ramifica sem perdão, chega a todo o lado como uma praga, dando a ilusão de uma vilória que se percorre em poucos minutos e onde todos se conhecem. Os nossos heróis patinam, os corpos secam na deslocação, misturam-se com as multidões que por vezes se formam nas avenidas mais largas. Roçam as tangas pelo trânsito, o cuzinho rijo, o sorriso em riste.

Já chegaram. Espalham-se estrategicamente. É o Tiger que se acerca do infeliz barricado. Avança, moreno, soberbo, beto, medindo o cenário. Mesas e cadeiras pelo chão, um rasto de desolação que espalhou gelado, coberturas, enchendo o pavimento de cor. Não há sangue, não há feridos. Tudo uma delícia. Fala com o agressor sem cerimónia, uma conversa mole, quase o trata por “querido”. “Você isto, você aquilo”, “Vou-lhe servir um gelado”, “Escolho eu os sabores”. O outro mudo, a observá-lo preparar também uma taça para si, esganado que estava, a escolher a bolacha, o creme de amendoim. Lambuzam-se os dois de gelado. A confiança parece estar ganha, mas o personagem não sai detrás do balcão. Nada o demove.

“Eia!” A Capitã está farta de lambuziquices. Apossa-se de um bloco de gelado e atira-o ao assaltante. Que o apanha com cuidado. Num ápice come com todos os membros da equipa em cima, que o imobilizam, apertando-o fortemente nos braços. Despacham-no para o hospital, e a boa disposição volta à geladaria. Populaça vai entrando e cada um dá uma mão e ajuda na limpeza. Os polícias galhofam, provocam-se, dançam sobre os patins, servem-se de gelados. A música toca.

E eis que zarpam. A matilha da tanga negra rola pela cidade, cabelos ao vento, de volta à piscina. Passam por Nódi, que rola em sentido contrário. O Príncipe dissimula, segreda-lhe ao ouvido. Juntar-se-ão amanhã à tarde.


Nuno Marques Mendes