
"A actividade social chamada comércio, por mal vista que esteja pelos teoristas de sociedades impossíveis, é contudo um dos dois característicos distintivos das sociedades chamadas civilizadas. O outro característico distintivo é o que se denomina cultura. Entre o comércio e a cultura houve sempre uma relação íntima, ainda não bem explicada, mas observada por muitos. É, com efeito, notável que as sociedades que mais proeminentemente se destacaram na criação de valores culturais são as que proeminentemente se destacaram no exercício assíduo do comércio. Comercial, eminentemente comercial, foi Atenas. Comercial, eminentemente comercial, foi Florença."
Fernando Pessoa, “A evolução do comércio”, in Revista de Comércio e Contabilidade, nº3, Março de 1926


Elaine W. Ng, ArtAsiaPacific, nº 55, Setembro/Outubro 2007
por Guidinha*
Surpresa! Comprámos o quadro! Não era o que queriam? Agora já é nosso, já é do Estado, de todos nós portanto. Arranjou-se um dinheirito que tinha ficado do seguro das jóias da coroa roubadas aqui há uns anos. Mas todos exigiam esta compra, todos uns mãos largas, da esquerda à direita, de cima a baixo. O património nacional ficaria gravemente esburacado, seria indecoroso deixar o quadro fugir. Ou deixá-lo na mão de privados, que são uns egoístas. Na leiloeira ainda tiveram pena, podiam ter ganho mais dinheiro se houvesse licitação e inflação do preço.
E agora o quadrucho lá vai para o Museu de Arte Antiga, montam-lhe um altar e pode-se dizer aos turistas que temos mais um Tiepolo, ao lado de outro Tiepolo que já lá estava. Um casalinho. Uma “Fuga” e uma “Deposição”. Os visitantes do museu vão passar pelas obras, vão dizer “ah!”, e vão seguir em frente. E ficamos todos mais felizes, a pensar que vivemos num país como deve de ser. E fica mais feliz o vendedor do quadro, que já pode fazer mais umas viagens ou comprar outra porcaria qualquer, mais barata.
E a Ministra da Cultura pode deixar de fazer aquele ar comprometido, aqueles olhinhos de cão triste que ostenta cada vez que lhe exigem mais dinheiro que ela sabe que não tem e não pode dar. Confesso que tenho pena dela. Qualquer membro activo da elite cultural portuguesa, quando olha para a Ministra, só vê cifrões. Ou símbolos do euro. Não é coisa que se faça a uma pessoa. Tem a minha solidariedade. E declaro: senhora Ministra da Cultura: não quero o seu dinheiro.
Pós-comentário: verifico que a minha solidariedade não vale nada. A Ministra foi sacrificada numa operação de relações públicas. Que vá em paz.
*Mestre em Aspectos Urbanos













Anteciparte IV
Fotografias da inauguração e de páginas do catálogo por Nuno Marques Mendes. Destacam-se Rita GT que destroi qualquer museu (três últimas fotografias) e Ricardo Leandro & César Engström (duas fotografias anteriores) com "Synchronize", vídeo coreográfico-musical.


























