"In recent years, globalization has been widely critiqued for promoting unfair labor practices and destroying local identities, values and environments.
At the same time, international artists, curators and gallerists are pursuing innovative practices that both celebrate the possibilities of global production and subvert assumptions that, despite the best advances in modern media, the world can be understood from an absolute or universally shared perspective. Globalization, strangely, has been a tremendous catalyst in showing us just how diverse and varying human sensibilities and values can be. While the 21st century confronts us with unprecedented moral, ethical and cultural dilemmas, it is also proving, in its early stages, to be intensely stimulating as old conventions give way to unique points of view. Indeed, nowhere has this been more evident than in the world of art, where the past decade alone has seen tremendous change."

Elaine W. Ng, ArtAsiaPacific, nº 55, Setembro/Outubro 2007



O quadro
por Guidinha*


Surpresa! Comprámos o quadro! Não era o que queriam? Agora já é nosso, já é do Estado, de todos nós portanto. Arranjou-se um dinheirito que tinha ficado do seguro das jóias da coroa roubadas aqui há uns anos. Mas todos exigiam esta compra, todos uns mãos largas, da esquerda à direita, de cima a baixo. O património nacional ficaria gravemente esburacado, seria indecoroso deixar o quadro fugir. Ou deixá-lo na mão de privados, que são uns egoístas. Na leiloeira ainda tiveram pena, podiam ter ganho mais dinheiro se houvesse licitação e inflação do preço.

E agora o quadrucho lá vai para o Museu de Arte Antiga, montam-lhe um altar e pode-se dizer aos turistas que temos mais um Tiepolo, ao lado de outro Tiepolo que já lá estava. Um casalinho. Uma “Fuga” e uma “Deposição”. Os visitantes do museu vão passar pelas obras, vão dizer “ah!”, e vão seguir em frente. E ficamos todos mais felizes, a pensar que vivemos num país como deve de ser. E fica mais feliz o vendedor do quadro, que já pode fazer mais umas viagens ou comprar outra porcaria qualquer, mais barata.

E a Ministra da Cultura pode deixar de fazer aquele ar comprometido, aqueles olhinhos de cão triste que ostenta cada vez que lhe exigem mais dinheiro que ela sabe que não tem e não pode dar. Confesso que tenho pena dela. Qualquer membro activo da elite cultural portuguesa, quando olha para a Ministra, só vê cifrões. Ou símbolos do euro. Não é coisa que se faça a uma pessoa. Tem a minha solidariedade. E declaro: senhora Ministra da Cultura: não quero o seu dinheiro.

Pós-comentário: verifico que a minha solidariedade não vale nada. A Ministra foi sacrificada numa operação de relações públicas. Que vá em paz.

*Mestre em Aspectos Urbanos














































Anteciparte IV
Uma selecção da mais jovem expressão artística nacional
O Anteciparte é uma iniciativa Propulsarte/Millenium bcp
Museu de História Natural, Lisboa
8 a 18 de Novembro de 2007


Fotografias da inauguração e de páginas do catálogo por Nuno Marques Mendes. Destacam-se Rita GT que destroi qualquer museu (três últimas fotografias) e Ricardo Leandro & César Engström (duas fotografias anteriores) com "Synchronize", vídeo coreográfico-musical.











Balmain
por Django


Saía para o terreiro em frente, um baldio, vasto, espaçoso, apetecível, vestindo o clássico roupão branco Armani, óculos Cartier, com um Virginia Slims aceso. Andava inchado, soltava umas fumaças. Chegado a meio do terreiro atirava-se, de costas, esfregava-se no chão, resfolegava.

Balmain era o missing link entre a discoteca His Master's Voice e o bando de patifes que tinham tentado rebentar o Hotel Estoril Sol. Contamos descobrir porquê. Não era, de todo, o paciente típico do Dr. Gloss. Tenho até dúvidas de que alguma vez o tenha consultado. Não era uma pessoa complicada. Gostava de levantar pó. Talvez fosse um dos financiadores das actividades político-literárias de Rodrigo de Almeida. Um dos contribuidores do fundo monetário internacional que o Rodrigo geria, um misto de dinheiros privados e familiares, uma parte do qual garantia a sobrevivência do seu irmão renegado e outra deveria ser aplicada em acções subversivas.

Kaytlin Kennedy, avistamo-la agora, a um canto do terreiro, sentada numa pedra. De mini-saia, óculos de sol brancos, quadrados, fumava cigarros não sei de que marca. Olhava para Balmain, indiferente. Que agora gargalhava, com os dentes cerrados, o cigarro entalado entre os dentes, gordinho, a esfregar-se na terra. Très amusant.










































Francisco Vidal
"Água"
Galeria 111
Rua Dr. João Soares, 5 B
Segunda a Sábado, 10:00 - 19:00
15 de Setembro a 27 de Outubro de 2007























João Fonte Santa
"Todos os dias a mesma coisa - carro - trabalho - comer - trabalho - carro - sofá - tv - dormir - carro - trabalho - até quando é que vais aguentar? - Um em cada dez enlouquece - um em cada cinco rebenta"
VPF Cream Arte, Galeria de Arte Contemporânea
Rua da Boavista, 84, 2º
Terça a Sábado, 14:00 - 19:30
28 de Setembro a 3 de Novembro de 2007


É um universo de ficção científica, uma pós-realidade, um planeta desolado, desértico, de luz ofuscante. Onde mulheres de biquini se passeiam ao sol com metralhadoras ao ombro, rapazes jogam futebol defronte de escombros de antiguidades arquitectónicas, destroços da civilização ficam abandonados no terreno. A desgraça e a destruição são acontecimentos comuns, esperados e inevitáveis.

As imagens não parecem verdadeiras, parecem saídas de uma banda-desenhada, algumas até divertidas, pelo absurdo. Retratam um quotidiano extraordinário, difícil de acreditar. Demasiado excêntrico, demasiado bom para ser verdade. A homogeneidade técnica (tinta da china sobre prata) acentuam este efeito de unidade espacial e temporal. Este lugar apocalíptico. Que é um engano. Porque os acontecimentos são reais, os desenhos são cópias exactas de fotografias publicadas na imprensa, têm tempos diferentes e a acção situa-se em geografias diversas (Nova Orleães / despojos do furacão Katrina, Bagdad / tropas americanas aquarteladas, Yunong / China / renovação urbana, Sknyliv / Ucrânia / desastre em espectáculo de acrobacias aéreas). Uma mediatização em segundo grau.

São imagens que transportam uma potencial ou efectiva violência. Porque nos atraem tanto? Porque é que este conjunto de desenhos é tão atraente? Noutro lugar, fora do quotidiano ocidental de classe média, monótono e repetitivo, existe uma zona de desgraça, o sonho de qualquer telejornal, onde é possível encontrar uma estimulação que abana a normalidade e torna o mundo um lugar perigoso. Um mundo de excepcional emoção.

Mas a observação mais interessante chega-nos de J. G. Ballard, em entrevista a Paulo Moura (Público, 2005): “Os seres humanos têm um grande apetite por violência. Estão muito interessados na dor e na morte. Talvez por muito boas razões biológicas. O Homo Sapiens emergiu há uns cem mil anos; a linguagem há 50 mil; a primeira cidade, no Iraque, foi construída há dez mil anos. E nos últimos 50 anos vivemos numa sociedade completamente nova, altamente organizada e consumista, que pôs os nosso cérebros a apodrecer. […] A maioria dos animais selvagens que hoje associamos a África andavam à solta na Europa ocidental há 20 mil anos. Os nossos antepassados caçavam estes animais, lutavam com eles. Nós não somos os seres racionais que pensamos ser. Somos selvagens. Os nossos sistemas nervosos centrais, os nossos cérebros, os nossos instintos, os nosso reflexos estão adaptados à vida de um caçador solitário. Ou de grupos de dez ou 12 caçadores, não mais. Os seres humanos são perigosos e têm imaginações poderosas. De repente meteram-nos neste mundo, em que a individualidade é reprimida, em que não podemos fazer praticamente nada…”

E faz-se a ligação com o título da exposição (que é a tradução de um slogan pintado numa parede junto à linha do Metro de Londres entre Ladbroke Grove e Westbourne Park pelo grupo de agitadores radicais King Mob, na década de 1970. Outra frase: "I don't believe in nothing - I feel like they ought to burn down the world - just let it burn down baby".), que, por si só, é uma outra exposição. Sem dúvida, a vida já foi mais selvagem. Era mais dura, mais livre, mais inesperada, mais perigosa. Ainda não se tinham inventado os empregos, com horários certos e salários certos, somente trabalho e vagabundagem ou a sorte de ser um privilegiado.

Nuno Marques Mendes








A nossa civilização é organicamente individualista
Fernando Pessoa



A nossa civilização é organicamente individualista. É-o porque assenta em dois elementos: a cultura grega, que se pode definir como sendo o individualismo racionalista, e o capitalismo moderno, em que o fenómeno concorrência é distintivo. Sempre que a civilização tentou fugir ao tipo individualista, estagnou ou perturbou-se. Ora o regime concorrencial, desde que chegue a um desenvolvimento intenso, torna difícil a adaptação dos fracos a ele. Torna, com o acréscimo da instrução, igualmente difícil a adaptação dos ignorantes. Por isso os débeis e os incultos espontaneamente se revoltam contra ele. Revoltam-se exactamente porque são fracos, pois se fossem fortes adaptavam-se e lutavam. Revoltam-se exactamente porque são ignorantes. Revoltam-se porque têm o rancor do débil ao forte, do indolente ao activo. E como se revoltam? Revertendo espontaneamente a tipos anteriores de sociedade — ao tipo corporativo da Idade Média, rebaptizado de sindicalismo. E é de notar que esta reversão, este ódio ao individualismo económico, se revela nas duas correntes extremas — no integralismo e no bolchevismo. É um fenómeno patentemente reaccionário. Baseia-se o bolchevismo em dois dogmas — o livre arbítrio (que supõe que o homem é quem dirige os seus destinos, e que a palavra «liberdade» tem qualquer sentido absoluto), e no milagre (pois, pretendendo construir uma sociedade fora do egoísmo, da vaidade, da cobiça humanas — fontes de todo o progresso e de toda a vida social — pretende por isso mesmo suspender as leis naturais, e à suspensão das leis naturais é que chama milagre). Nestes dois dogmas — patentemente derivados do cristianismo — assentam os dois misticismos bolchevistas.O ódio feroz do bolchevismo ao cristianismo é bem o ódio de fanáticos a fanáticos, de uma religião a outra. Não nos iludamos, supondo que assistimos a uma luta de classes: continuamos na fatalidade europeia das guerras religiosas, das lutas de (...) desde que o paganismo caiu, com Juliano, e a paz religiosa abandonou o mundo.

in "O preconceito revolucionário"